sábado, 12 de fevereiro de 2011

P62 Agora todo mundo corre

Se um pontapé faz isso, imagine um tiro...
Mais um dia em que vou para a casa da minha mãe, vazia desde sua morte. Tomo conta dela há tempos. Ainda não sei, mas vou chutar um amigo que ainda nem conheço. E há tempos tento controlar os ânimos com os moleques de rua. Mal-educados, relaxados e sujos como os pais, sempre na calçada maquinando o que não presta. Já troquei várias vidraças da janela. O divertimento desses pequenos animais? Chutar uma bola de futebol na janela quando estou longe. Quando chego como em outras vezes já aconteceu e falo com eles, mentem de forma descarada, crentes de que não foram vistos. E além disso, no Brasil, o que pode ser feito com crianças e adolescentes? Nada. O ECA ou a lei do Estatuto da Criança e do Adolescente lhes permite todas as patifarias, crimes e atentados contra as pessoas sempre com a hipocrisia de "proteger os menores" ou como todos sabemos, os famosos "de menor". Mas pelo estado de raiva que me toma conta, já vi que hoje vai ser diferente. Sempre acreditei que ECA está mais para Escola do Crime para Adolescentes isso sim.
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Vindo pela rua vejo de novo os pequenos vagabundos chutando a bola, até que consigo devagar chegar a meio quarteirão de distância quando eles me veem. Os dois maiores já espertos na vagabundagem saem pelo quarteirão acima e largam o menorzinho com a bola enroscada entre a sargeta e uma laje de cimento. O pequeno, já escolado na mentira tenta me dizer que "...está vendo a bola aqui, eu não estava chutando a bola...". Nem eu acreditei que tivesse voz de tenor assim para lhe berrar tão alto todos os palavrões possíveis. Mereceu, pouco me interessa o tamanho ou idade, já é um vagabundo com esse tamanho.
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Pareço agora um covarde. E se eu estivesse de frente com dois marmanjos? Mas continuo subindo a rua. E gritando todos os palavrões e piores adjetivos dirigidos aos dois sem-vergonhas que se encostaram num portão. Os vizinhos começam a sair porta afora para ver o que está acontecendo. Ótimo, é isso mesmo que quero. Dobro a esquina e vejo os dois vagabundos um pouco mais crescidos pondo em prática a primeira tática dos "de menor" malandros: se encostarem no portão de casa e fazerem de conta que não é com eles.

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Ora, parece que não está dando certo, eles olham e o sujeito continua subindo a rua, gritando e o que é pior, está indo para cima deles. O outro menorzinho já foi para sua casa que nem sei onde é. Melhor dizendo, esconderijo. Os "de menor" usam outra tática segura nesses casos e entram portão adentro. Pronto. Verdadeira proteção que nem uma embaixada oferece. Do portão para cá nem a polícia entra, estamos a salvo pensam. Continuo chegando e gritando, vizinhos todos na rua. Já imagino a polícia chegando e me prendendo e estou pouco ligando. Depois volto aqui e jogo um tijolo na casa desse desgraçado. O casal de idosos que me havia dito não ter mais paz com esses moleques me olha com um pequeno sorriso vendo o que vai acontecer. E acontece.
Vendo o portão fechado, dou-lhe um pontapé com toda a raiva que sinto. Ora essa, é assim que os ladrões arrombam casas. O portão que parecia firme se abre e bate de lado. O encaixe da fechadura cai grudado em um pedaço de tijolo e cimento. Os "de menor" me olham de olhos arregalados e entro gritando para eles todos os palavrões que já havia gritado na rua. Os três cachorros, defendendo sua casa avançam e um deles me crava os dentes na perna. Dou-lhe um pontapé e ele sai de lado. Sem saber chutei um amigo, o único sujeito decente daquela casa. Os palavrões continuam. Impublicáveis. Os mais suaves "...filhos de vagabundos...", "...agora todo mundo corre..." e por aí foi enquanto os "de menor" sumiam porta adentro e olha só, aparecem dois marmanjos. Pronto, eu sou menor que eles, é certo, antes da polícia chegar vou levar murros e pontapés e ser jogado na rua, miseravelmente quebrado. Não estou nem aí, depois que tirar a última bandagem volto aqui e cobro geral.
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Como já é habitual nos dias de hoje, os dois fazem parte da medonha figura em que tem se tornado o brasileiro típico. Chinelão, bermuda e um barrigão que completa a aparência de desmazelo e relaxo. A discussão começa, palavras feias de cada lado, mas ora essa, um deles me olha de alto a baixo de cara feia, põe as mãos na cintura e depois vai para dentro da casa. Acho que vai pegar uma arma, dane-se, estou pouco ligando. Continuo discutindo com o outro que também me olha de alto a baixo e me diz uma frase que me deixa desnorteado. Terei invadido a casa errada? Depois de arrebentar seu portão, gritar todos os palavrões a quem julgo seu filho, depois de todas essas cenas quando ele deveria avançar para cima de mim aos murros, ele me diz que:
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- Você não pode invadir o meu quintal e chutar o meu cachorro.
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Deixando claro a ele que estava alí por causa da irresponsabilidade e vagabundagem do seu filho e que as consequências seriam sempre essas se ele aprontasse bagunça novamente, trocamos mais umas palavras nada amigáveis e saio, com ele me dizendo que vai ver isso com o filho dele. Então era filho mesmo, mas ele se mostrou mais preocupado com o cachorro. Que filho mais reles. Seja lá como for, os dois pequenos meliantes já seguem os pais, bermudão e chinelos imundos nos pés. O sujeito que havia entrado na casa sai sem arma nenhuma. Apuro os ouvidos e não escuto a sirene do carro de polícia, então não chamaram ninguém.
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Descendo a rua, me lembro dos botecos onde tipos assim são a presença contínua, habitual, retrato desesperador do povo decaído em que tem se tornado o brasileiro destes dias. Sempre desmazelado e relaxado. Com esse exemplo que tipos de filhos esperam criar? Se é que criam. Os filhos olham para seus pais assim e pensam que se os pais, exemplo maior, andam pelas ruas seminús, incapazes de colocarem sapatos, uma roupa decente, de se mostrarem higiênicos, asseados, então o certo é isso, andar na rua como o papai. Como decaímos com o regime dito de "democracia e cidadania". O negócio é sentar o pé ou bala se for preciso. Desci a rua pensando que se um pontapé faz isso, o que fará um tiro então?

Na rua os vizinhos em praticamente todas as casas, olhando tudo. Acho é pouco, quero mais que o sujeito morra de vergonha. O casal de velhos ainda apreciava a coisa toda. E eu pensava como é que dois sujeitos maiores do que eu não me moeram de pancadas? Eu devia estar mesmo com uma cara de demônio. Sinto a perna doer e aí vejo na perna esquerda o rasgão e percebo uma pequena mancha de sangue. A dentada do cachorro, único amigo e figura decente e aprumada alí naquela casa, que coisa. No calor da situação não nos encontramos de forma amigável. Me viro para pegar a chave e vejo no bolso da perna direita o volume do molho de chaves junto com o aparelho que toca MP3. Só pode ser isso.
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Olho novamente e vejo que o volume no bolso parecia de forma convincente uma pequena pistola automática, as chaves parecendo uma coronha e o tocador de MP3 o cano. Não consigo imaginar outra coisa. Me lembro do outro homem me olhando de alto a baixo e ao invés de avançar para cima de mim, virou-se e entrou na casa. Terá sido por isto? Me lembro da olhada do outro também e a discussão que se seguiu depois e ele preocupado em defender o cachorro.
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Tudo indica que foi isso. Chega um sujeito chutando o portão, gritando coisas horríveis e os dois maiores do que eu saem e ficam só na saída e numa pequena discussão. Olho de novo. Parece mesmo o contorno de uma arma. É isso aí. Você trata certas pessoas com decência e dão risada de você. Dizem para você se danar. Aí você mostra que está disposto a cometer atos de violência extrema e o que fazem? São cuidadosas e dizem que isso não vai acontecer de novo. Sim, a violência funciona.
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Deixo a casa da minha mãe arrumada e sei que infelizmente ainda terei problemas. Não vou viver em guerra com o mundo, mas de vez em quando vou aprontar com ele. Em casa, depois de passar um antibiótico na perna, me ponho a rememorar tudo. Depois durmo o sono dos anjos.
Ainda por cima a justa violência faz bem ao espírito.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

P61 Chutei um amigo

Depois a gente se desculpa...
Com essa história do amigo chutado dou sequência ao texto anterior que se encadeia com ele e com os próximos, porque para comparar e atribuir valores às coisas precisamos, que surrada lógica, de coisas. E muitas vezes para fazer isso com seres humanos, precisamos até de animais. Que situação. Mas como é que se chuta um amigo? Simples, não o reconhecendo à primeira vista numa situação onde decididamente você percebeu que a violência é a única saída. E o mais interessante é que ela funciona. Dizem que ela se volta contra a gente, mas no placar geral, com os bons recebendo a violência sem terem feito nada para merecê-la, descobri, ou melhor constatei mais uma vez que ela é útil, necessária, tem efeitos e principalmente, faz bem para o estado de espírito. Você é violento quando é necessário e volta para casa em paz, certo de ter feito o que era preciso.
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Você é educado na maioria das ocasiões, resolve tudo sempre que possível por bem. Está tudo muito bem assim. Na maioria das vezes em que não é possível, o dito cidadão de bem resigna-se frente aos patifes e acredita que passar raiva em casa relembrando frases pacifistas é a mais nobre das virtudes. Engana-se quem pensa assim. Você não vai viver em guerra com o mundo, mas que a violência dá bons resultados em muitos casos, dá sim. Tem vez que dá errado mas e daí? Quantos cidadãos já não levaram a pior exatamente porque acharam um dever sagrado serem tão pacíficos quanto o próprio Ghandi, que por sinal morreu com três tiros sem reagir? E ia reagir de que jeito se ele, por fé, só usava uma bengalinha e uma túnica branca?
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Existe uma grande diferença entre quem não reage a uma agressão tendo condições de exercer a violência porque procura dar mais uma chance ao diálogo e entre quem não reage a qualquer violência que venha a sofrer porque simplesmente se colocou na posição de não poder reagir e renunciou a todos os meios para isso. Mais pacifista é quem tem condições de revidar a violência sofrida e não o faz porque percebe que ali cabe mais uma chance para o entendimento. E se decidir revidar, muito bem, está certo. É muito humano.
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Há uma violência que você sofre que é uma agressão descabida, injusta. E há uma violência que é exercida em resposta contra esse agressor que é uma justa retaliação, um ato de violência que machuca física ou moralmente o agressor e mostra a ele que sim, existem consequências para seus desatinos, se ele estava tranquilo pensando que nada lhe aconteceria. Mais do que tranquilos, a maioria dos agressores que agem assim são insolentes.
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E foi assim, no revide de uma série de aborrecimentos que acabei chutando um amigo, que ora essa, no seu devido papel de guardião e com uma decidida mordida, me abriu um rasgão na calça e um furo na perna com um dente afiado. No calor da situação, levou um chute. Me pego arrependido de ter chutado, tal a confusão da situação, o único amigo do lugar em que entrei, também depois de um bem aplicado pontapé na porta.
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Mas as coisas são assim na vida. Nem eu poderia ter de imediato reconhecido o amigo, nem ele me vendo naquelas condições poderia me ter reconhecido de igual forma. Espero que um dia possamos nos encontrar em outra situação. E foi assim que um amigo canino, da raça que em sua essência e comportamento tem se mostrado nestes tempos melhor do que a maioria dos seres da raça dos humanos, que se pretendem superiores a eles, foi, creio eu, para um canto curtir suas dores, enquanto eu aqui em casa passava antibiótico no furo da perna e olhava o rasgão na calça.
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De qualquer forma, louvável sua atitude e coragem de guardião de um local que ele julga habitado por seres decentes. Pobre animal. Soubesse ele das vilezas que guarda e certamente teria sido meu aliado, pondo seus dentes junto do meu pontapé no castigo dos malfeitores.
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Sim, a violência funciona e faz bem para a paz de espírito quando meditamos sobre tudo depois.
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A lamentar apenas ter chutado um amigo por total engano, ao qual estamos sujeitos nas ocorrências da vida.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

P60 Um pequeno animal

Na sexta feira, dia 4, encaminhei-me mais uma vez para a casa da minha mãe, da qual venho cuidando até que saia o inventário. Toda vez que vou lá, vou apreensivo. Terei mais um vidro quebrado na janela? Infelizmente o Brasil se tornou um país de crianças mal-educadas, ignorantes de uma postura moral, de bons costumes e até mesmo de asseio. É a triste verdade dos dias de hoje. Os maior incentivo disso vem dos pais, igualmente relaxados e das leis feitas para propiciar o rebaixamento moral dos famosos menores de idade. Os pais por sua vez, já chegaram na idade adulta assim rebaixados. É verdade que nem todos são assim, mas os bons já perdem e em muito para os animalizados. Com as cenas que se seguiram ao encontrar mais uma vidraça quebrada e seguindo e arrombando o portão da casa dos responsáveis e depois de discutir com eles, voltei certo de uma coisa: a violência funciona, já que não temos mais leis decenter, crianças ou pais pela frente, mas sim seres animalescos.
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Nesse meio de tempo, uma amiga leitora da Bahia deixava um comentário no texto O Ressuscitado e com tudo o que aconteceu, pensei que uma exposição sobre o que vivemos hoje em dia é válida. Uma exposição que mostra a constatação de que, sim, a violência funciona, já que estamos entregues a uma sociedade que se tornou inculta, suja e afeita a passar horas sentada na sarjeta, maquinando o que não presta. De forma não muito diferente, apenas em nível judiciário mais alto, nossa classe política é a responsável por ter contaminado os cidadãos com toda a sua imundície moral e física que habitualmente mostra quando aparece em público.
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Poucos dias antes, um ratinho havia morrido na ratoeira que coloquei perto do bueiro. Com a chuva, as águas subiram e ele afogou-se. Lamentei encontrá-lo assim. Me acalmando aqui em casa, fui encadeando as idéias, para colocar tudo em texto. Certos acontecimentos da vida, temos que aproveitar para fazer uma análise da nossa sociedade. A constatação pode ser desanimadora.
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Texto originalmente publicado em 16.05.08 no Bilogue de Textos, Idéias e Imagens
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Um pequeno animal
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De quando os animais são mais humanos do que os humanos...

Enterrei no dia 23 do mês passado uma pequena cachorrinha que apareceu doente no portão da minha casa. Numa noite, quase caindo, se deitou do lado de fora e eu com pena dela passei a dar-lhe água e ração. Como animal abandonado tinha medo de tudo, demorou até ter confiança de entrar no quintal. Após algum tempo, vendo que não seria maltratada aquietou-se num canto, onde fiz uma casinha para ela.
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Coberta de feridas, tive que tratá-la e pude perceber que aos poucos, na medida em que seu corpo se restabelecia, ela de forma surpreendente tomava conta da casa que a acolhera. Melhorando a cada dia, ela latia e cada vez mais alto, a qualquer estranho que passasse pela frente da casa. No quintal dos fundos também mantinha vigilância. Me senti gratificado num dia em que a havia banhado e quando fui soltá-la da corrente, ao me abaixar ela me estendeu a patinha. Podia ver seu estado de ânimo, sua alegria, sua confiança. O rabinho abanando e no ar a patinha estendida. Desde esse dia, toda tarde quando eu voltava, ela corria até a grade do portão e me estendia a patinha. Realmente mais civilizada que certos humanos.
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Mas a doença que ela trazia no corpo já a tinha condenado. Ela melhorou muito por coisa de um mês e depois começou a perder a saúde novamente. Ainda assim, mesmo doente, vinha me receber quando eu voltava e mesmo mais fraca latia contra estranhos. Até o dia em que caiu sem forças. Chamei o veterinário e nada mais havia a fazer a não ser abreviar sua agonia. Naquela manhã, deixei-a bem confortável ao sol, para que não sentisse nenhum frio, dei-lhe água para tirar qualquer sede e afaguei sua cabeça com carinho. Consumida pela doença, ela mal podia olhar para mim. O veterinário deu-lhe a injeção de anestésico e em menos de um minuto sua agonia terminava e ela fechava os olhinhos. Fiquei de olhos úmidos ali.
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De tarde peguei seu corpinho, a levei até uma floresta, cavei uma cova e a enterrei. Lembrei-me das vezes em que ela havia defendido a casa que a acolhera, da patinha estendida no ar, da sua confiança em ser bem tratada, de tudo e achei que havia feito certo ao invés de deixar seu corpo para ser recolhido pelo caminhão de lixo. Dei-lhe o funeral mais decente possível que ela como animal abandonado poderia ter.

Enquanto levava seu corpo e preparava a cova, ia me lembrando das notícias do projeto de lei dos deputados que institui o auxílio funeral de 16 mil reais para essa verdadeira quadrilha que hoje toma conta do legislativo no Brasil, das câmaras de vereadores até senadores. Não podia deixar de fazer comparações entre as atitudes daquele pequeno animal e as atitudes desses animais políticos, no mais baixo sentido, que hoje são o tormento dos brasileiros.
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Enquanto abria a cova com a pá, pensei nas esperanças dos brasileiros, enterradas na vala comum da corrupção dessa gente, enquanto colocava o corpinho dela ali me lembrei dos corpos das pessoas mortas e abandonadas em hospitais públicos destruídos pelas fraudes desses políticos e quando cobri a cova, pensei nas promessas que esses políticos corruptos mataram e enterraram.
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Me senti certo de uma coisa. Que aquele pequeno animal merecia aquele funeral, com honras mesmo, pois no pouco tempo em que vivera havia demonstrado valor e coragem que não vejo em nenhum político hoje. Aquela pequena cachorrinha doente, coberta de feridas, ao postar-se vigilante na frente do portão tinha mais nobreza, coragem e presença do que o mais bem vestido dos políticos de hoje. E muito mais caráter, apesar de ser apenas um pequeno animal.

Estava voltando pela estrada e tive a absoluta certeza de que, se por um desses acasos da vida, eu encontrasse ali um desses políticos que criaram o projeto de auxílio-funeral, eu o mataria com um único golpe daquela pá, sem piedade. Nem seria um assassinato, seria uma limpeza necessária.
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Mas não enterraria seu corpo. Eu o deixaria ao largo na estrada para o caminhão de lixo. Mas fiquei certo de uma coisa. Os lixeiros o reconheceriam e não o levariam.

Mesmo o lixo tem uma certa pureza que nossos políticos não tem.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

P59 Adivinhe quem mandou lembranças

Tudo em ordem no exército do tráfico...
A imagem acima da Guerra do Vietnã dá uma imagem clara de coisas parecidas que acontecem por aqui, se bem que nos limites da cidade do Rio de Janeiro.
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Um
soldado americano desolado não consegue entender porque depois das operações com contingentes enormes do exército americano no Vietnã em 1968, os guerrilheiros vietcongs magros e com sinais de fome crônica, descalços, mal-equipados, sem apoio aéreo e sem comando central conseguiam voltar a surpreender os americanos com ataques de surpresa mostrando que estavam sim bem vivos, apenas tinham mudado de lugar. Generais distantes da zona de combate ordenavam investidas incríveis, que com morros e colinas sendo atacados por mais de 12 horas e finalmente conquistados traziam aos soldados americanos uma breve certeza de que haviam vencido, até descobrirem que os vietcongs simplesmente haviam mudado para outra colina ou morro e de lá lançavam novos ataques. Enquanto isso os generais podiam reportar ao comando militar americano mais uma "vitória" e mais um morro ou colina "conquistados".
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Não foi nada diferente o que aconteceu e acontece na cidade do Rio de Janeiro, onde depois de uma espetaculosa e vergonhosa operação montada às pressas para acalmar os ânimos dos dirigentes da FIFA e do COI, que cuidam respectivamente da Copa do Mundo e das Olímpiadas e que por enquanto estão previstas para acontecerem no Rio de Janeiro, os comandantes militares brasileiros puderam anunciar aos seus novos chefes estrangeiros a "vitória" contra os soldados do tráfico, que ora essa, que bando de mal educados, no dia 24 deste mês, durante uma operação no Morro da Mineira mostraram que continuam sim, vivos, bem organizados e bem armados.
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Policiais subiram o morro atirando, e levando tiros e sobrou bala até para o helicóptero da Rede Globo, o Globocop, que auxiliado pelas orientações do piloto da Rede Record fez um pouso forçado quase caindo. Três tiros acertaram o Globocop, com mira precisa dos soldados do tráfico. Que vergonha para a emissora que passou quase um mês cantando "vitória", "resgate da cidade" e outras conversas redigidas para a alegria das autoridades, que comemoravam a "vitória da lei e da ordem", quando o televisor no canto da sala, talvez por não ter ligações políticas, de forma inconveniente estragou a festa mostrando o helicóptero caindo. Mas eles não tinham "vencido"?
O mesmo helicóptero que filmou as operações militares no Complexo do Alemão e produziu as imagens para as exultantes e laudatórias crônicas do casal de jornalistas de sua emissora, onde sobravam termos como "O Estado retoma a cidade...", "As forças policiais derrotam os traficantes...", "A população do morro é libertada..." e demais frases de efeito para serem ouvidas única e exclusivamente pelos dirigentes da FIFA e do COI que há muito tempo exigem que a cidade fique como uma vitrine de shopping center arrumada e sem tiroteios para sua alegria. E todas essas frases sobre a "vitória do povo carioca" caíram junto com o helicóptero, quando os traficantes decidiram mandar lembranças com três tiros precisos. Em dia de especial bom humor, deram só três tiros no helicóptero da Rede Globo, ao contrário do outro da polícia, que metralhado no ano passado, caiu, explodindo e matando os policiais.
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Os soldados do tráfico, inconvenientes como os antigos vietcongs, dominando os morros do Rio de Janeiro, descalços ou então de chinelos ou de tênis, drogados, bem armados, sem comando central e sem apoio aéreo mandaram um recado bem claro ao casal de jornalistas que fazia a tarefa do dia para as autoridades e dirigentes esportivos estrangeiros. Continuam bem vivos, bem armados e principalmente não mexam com eles, façam como vem fazendo até agora, finjam que ganharam, que o tráfico e seus soldados continuam móveis, de um morro para outro, armados, com dinheiro, com drogas e tudo mais que quiserem.
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Quanto às tropas da polícia, já velhas conhecidas deles e em alguns casos parceiras informais de negócios, elas pouco ligam para isso.
Quanto às tropas do Exército e da Marinha estão na triste situação de ficarem dentro de seus tanques inúteis, estacionados no pé dos morros, sem ter o que fazer, enquanto denúncias de envolvimento de soldados com furtos e maltratos aos moradores já começam a aparecer na imprensa. Tudo isso sob o sorriso irônico dos soldados do tráfico, que de cima do morro , veem tudo.
Ou traduzindo tudo na celébre interpretação do ator Sandro Rocha, que no filme "Tropa de Elite 2" fazendo o papel do corrupto Major Rocha, ao ser enquadrado pelo comandante do batalhão da PM, igualmente corrupto, resume sua desobediência numa frase acachapante, que deixa o comandante sem resposta:
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- E tem mais. Quem disse que o comando do batalhão é teu?

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O filme também retrata com perfeição a índole das autoridades não só do Rio de Janeiro, mas do Brasil todo no geral. E nessa degradante situação, derrota avassaladora mesmo sofreram as tropas do Exército e da Marinha, que ao invés de recusarem firmemente o triste papel de figurantes num cenário militar armado para conveniência das autoridades do Rio de Janeiro, só para exibição aos dirigentes da FIFA e do COI, ao invés de denunciarem tão indecente manobra numa carta aberta ao povo, hoje ficam no pé dos morros, com seus tanques e soldados paralisados numa única posição, exatamente como acontecia com as tropas do exército americano, que pelo menos obedeciam aos seus generais e não a um grupo de interesses de estrangeiros.

sábado, 22 de janeiro de 2011

P58 O cofre da Dilma

Ladrão que rouba ladrão...
Após os desastres naturais que assolaram a população do Rio de Janeiro e agora assolam as cidades de Santa Catarina, viu o povo brasileiro o quanto está entregue à sua própria sorte e pior ainda com seus governantes dedicados à rapinagem generalizada das riquezas que esta nação imensa ainda consegue produzir.
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Lendo nas reportagens dos jornais sobre acontecimentos tão tristes, não pude deixar de notar também o egoísmo já em grau psicopático mostrado por alguns políticos já velhos conhecidos da cena política, que jogando ao chão a fantasia de ética e de tribunos dos pobres e oprimidos, não tiveram a mínima decência nem escrúpulos ao anunciarem a todos seus pedidos de aposentadoria, que é claro, serão pagas pelo mesmo povo sofrido e que a duras penas se levanta dos desastres naturais que o atingiram. Enquanto o povo chora e corpos ainda são encontrados, eles comemoram a fortuna que irão receber.
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Um dos políticos que pediu a aposentadoria retroativa aos tempos em que foi governador diz que tem projetos de dedicar os ganhos para obras de filantropia. O outro senador diz-se moralmente contra o mesmo tipo de aposentadoria que pediu, mas termina com uma observação que justifica tudo. Já que ela existe, ora, o que fazer?
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Assim, Dilma Roussef, a atual presidente que participou do já folclórico roubo do cofre do ex-governador Ademar de Barros durante a luta armada na década de 70, vê o seu próprio cofre roubado pelos seus amigos de política. Nada surpreendente, com os tipos que ela se meteu, não poderia esperar outra coisa.
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Se bem que o cofre que é agora roubado é o mesmo que deveria ser aberto para socorrer as vítimas de tantos desastres nesse país e pior ainda, dos desastres que estão por vir.
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No próximo texto comento a visão de tudo isso. Espero mais um dia. Talvez um senador renuncie a essa imoralidade como ele diz e outro surpreenda a todos se tornando voluntário de organizações humanitárias que atuam em zonas de conflito no mundo.
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Pode até acontecer, mas vendo o cofre das riquezas da nação roubado por aqueles que deveriam guardá-lo, acho difícil.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

P57 Quem roubou a manteiga?

Porque reclamo...
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O artigo de hoje foi publicado originalmente no bilogue "Oitavo-Dia" que é postado em Portugal e onde a cada semana publico um texto. Tendo conhecido o trabalho deles há muito tempo e leitor frequente, acabei convidado a escrever lá, o que faço com gosto mas sempre sobre temas políticos. Escreveria hoje aqui sobre um outro tema político, mas o que postei ontem lá me pareceu apropriado, já que sobre o que vou escrever vai me custar mais uma pesquisa. Mas parece que uma sociedade que reprime pequenos furtos com uma severidade impensável e premia terroristas com a liberdade não tem em definitivo, padrões de comportamento jurídico e político que possam ser chamados de civilizados. Pode-se se fazer de tudo sobre isso, menos elogiar, que me perdoe o leitor que disse que eu só reclamava. E dá para fazer outra coisa? O mínimo a fazer então é manter viva essa indignação pelas palavras e pelos meios que venham a ser possíveis, já que por hoje só podemos escrever.
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Senão vejamos. Somos uma sociedade onde leis implacáveis vigiam o farmacêutico. Se um fiscal flagrar o farmacêutico vendendo tranquilizantes sem receita para um consumidor, além de aplicar uma multa pesadíssima, pode fazer com que ele perca até a farmácia. No entanto, se no mesmo momento em que o fiscal estiver fazendo isso, chegar a polícia que já seguia o fiscal e fazê-lo esvaziar os bolsos e encontrar alí pedras de crack, dependendo da quantidade ele pode dizer com um sorriso que é para seu uso pessoal pois ele é viciado.
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E a polícia, com a maior cara de idiota tem que ir embora, enquanto ele acaba com a vida do farmacêutico e envolve o comprador dos tranquilizantes também num processo. Aliás ele pode até mesmo chamar os policiais de volta para que prendam o farmacêutico, os mesmos policiais que poderiam estar prendendo o fiscal que traz drogas no bolso e que agora pode dar ordens para eles, pela letra da lei. O que é pior? Uso de tranquilizantes por necessidade ou uso de crack financiando o crime organizado?
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A mesma polícia, voltando frustrada para a delegacia pode ser imediatamente parada por um comerciante que pede socorro. Uma mulher acabou de roubar um pote de manteiga em sua loja e a polícia a leva a bofetadas para a prisão onde ela vai ficar presa por alguns meses e isso realmente acontece pelo Brasil afora. Logo depois de prenderem a mulher recebem a tarefa de escoltarem para a detenção em sala de Estado-Maior um magistrado envolvido em crimes, que ficará com todo conforto em uma sala onde será cumprimentado por outros policiais e chamado de "excelência".
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Ora, uma sociedade que se porta dessa forma perdeu todos os seus paramêtros, todas as suas referências de comportamento, de valores morais e de justiça. Tudo é relativo. O farmacêutico vai preso, o fiscal cúmplice de traficantes está livre, a mulher pobre que roubou um pote de manteiga é presa, o magistrado que desvirtuou a justiça fica solto e em outra cidade um jornalista que matou sua namorada e é réu confesso é condenado a 19 anos de prisão e para espanto de todos sai solto no mesmo dia da condenação. Hoje o cidadão brasileiro não pode contar com a polícia, com o judiciário ou com as leis. Tem que contar com a sorte.
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Assim Cesare Battisti, terrorista italiano iria escolher que outro país para se esconder? Só poderia mesmo escolher o Brasil, onde percebeu que teria bons companheiros no meio político e judiciário. Verdade que mesmo nesses meios há os que se opõem a isso, mas o que impera é o relativismo moral. Nem todos, mas a maioria dos magistrados decidida a aplicar uma pena impiedosa a Cesare Battisti, acharia a coisa mais correta se um dos seus pares fosse afastado por ser flagrado envolvido em corrupção e crime de vendas de sentenças. Eu disse afastado e continuando a receber seu salário porque nesse caso um magistrado nem é preso. E depois seria "condenado" à pena de aposentadoria, exatamente porque se envolveu com criminosos. Vendo tudo isso, onde mais Cesare Battisti poderia se dar bem? Só no Brasil mesmo. Ou seja, do momento em que o fiscal da Anvisa abordou o farmacêutico, do momento em que ele foi abordado pela polícia, do momento em que a polícia prendeu uma pobre ladra, do momento em que ela teve que ver o assassino solto após o julgamento e do momento em que ela ainda tem de servir de escolta para um magistrado corrupto, percorremos um caminho absurdo de relativismo moral. Esse relativismo é chamado de lei, código civil, código penal, constituição e vários outros nomes, como convém a um criminoso. Ou criminosa? Bem, tudo é relativo.
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Por aqui, a estória do filme é de verdade... Outro bom filme da década de 90 foi "Os Bons Companheiros" onde Ray Liotta interpretava um gangster em ascensão, cumprindo todas as ordens da Máfia para chegar ao topo. Seu colega vivido por Joe Pesci quase conseguiu uma posição de comando mas morreu executado por ordens dos seus amigos. Robert de Niro, no papel do quase chefe dos amigos dá uma última missão para Ray Liotta, que percebe claramente que nessa missão terminaria morto como seus amigos que sabiam demais e então busca refúgio como testemunha do governo americano, passando a viver protegido com outro nome. Em todo caso ele sabia para onde estava indo para continuar vivo.
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De forma parecida Cesare Battisti fez a mesma coisa. Foragido de seus crimes na Itália e vivendo em Paris, ao perceber que o governo francês iria entregá-lo para a justiça italiana, não teve dúvidas e seguiu o mesmo caminho de muitos bandidos estrangeiros. Foi até o aeroporto e comprou passagens para o Brasil. De qualquer forma a capital do país, Brasília, se tornava assim apenas uma conexão onde poderia, com uma certa dose de risco, contar com a proteção de seus "bons amigos" do governo e da política brasileira. Quem acha que Cesare Battisti fugiu para o Brasil como se fosse a única e desesperadora saída se engana. Experiente em fugas, antes ele pesou cuidadosamente as chances que teria por aqui.
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Cuba que antes era o seguro exílio de muitos terroristas da década de 70 acabou. Está falida e se preparando para o retorno ao capitalismo e venderia de bom grado por alguma franquia de lanchonete americana ou loja de perfumes européia qualquer um que fosse acusado de terrorismo em seu país, mais ainda se tivesse participado de assassinatos como Cesare Battisti. Mas ainda tem passagens para o Brasil, o que com certeza de agora em diante vai constar do manual de qualquer terrorista europeu, se bem que o terrorismo sob o cartaz ideológico ultimamente anda em baixa. Com Cuba falida, a Rússia capitalista e a China no meio termo, foram-se os tempos de embaixadas cheias de amigos. Ideologia hoje não é ler os clássicos do marxismo mas sim as cotações das bolsas de valores do mundo.
Só restou mesmo o guichê das companhias aéreas para comprar passagens para o Brasil, com certeza o lugar mais seguro na busca de um refúgio, dado que antigos terroristas que por aqui praticaram atentados e assassinatos na década de 70, hoje estão no governo e ainda por cima, em cenário absurdamente diferente de países estrangeiros, desfrutam de ricas aposentadorias que eles mesmos se concederam quando ocuparam cargos legislativos. Que outro país qualquer terrorista escolheria para fugir? Só mesmo o Brasil.
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Para maior vergonha da nação brasileira, que vive um governo supostamente progressista mas na verdade amparado por imensa campanha publicitária e mais ainda pelo poder do seu tamanho, população e trabalho, esses sim reais mecanismos que impulsionam seu crescimento, Cesare Battisti é hoje apoiado festivamente por políticos que nenhum compromisso real tem com ele a não ser aparecerem nas fotos dos jornais.
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Pouco se interessam, apesar de toda a estrutura que lhes é concedida pelos seus cargos, em irem até a Itália para apurarem em definitivo o que é verdade e o que não é, visto que quase todos são do mesmo partido do ex-presidente, ao qual foi deixada a triste decisão final pelo tribunal brasileiro que se diz supremo e que agora com o enrosco de volta em suas mãos, parece negociar um "empate" para dar o assunto por finalizado.
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Em todo caso, se tivesse fugido para a Rússia, China ou Cuba apelando para antigos manuais ideológicos, há muito tempo Cesare Battisti já teria sido deportado para a Itália. Só mesmo contando com a ajuda dos bons amigos do Brasil é que hoje posa sorridente para fotografias.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

P56 Desculpe por reclamar

Pensei que descrevia o que vejo...
Devo então pedir desculpas aos poucos leitores que aqui aparecem de vez em quando. Afinal não ressurgi no primeiro dia do radioso ano de 2011, em que pese a foto que escolhi para ele. Devo pedir desculpas por reclamar. Ou estarei apenas descrevendo o que vejo e como cidadão passando o sentimento político que tenho para a minha descrição?
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Até demorei e mais do que o habitual para escrever. Isso se deve em parte à pertinente observação de um leitor crítico que por sua vez teve que reclamar também e de mim dizendo que eu reclamava das coisas. De qualquer forma ele tomou o mesmo caminho que eu. Nada contra, é com essa mostra de insatisfação que muitas vezes uma sociedade avança em direção ao progresso e um sujeito comum avança em direção a uma visão melhor das coisas. Ou talvez, para se revoltar de vez com o que vê e ver o que pode fazer, ainda que com palavras.
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Apesar de estar já estar politicamente fossilizado, prodígio conseguido pelo sistema político brasileiro nesses 26 anos de "democracia participativa" onde os três poderes com todos os seus vícios participam do saque às riquezas da nação enquanto que ao povo resta participar do trabalho duro, ao mesmo tempo em que é amparado pelos poucos e notáveis membros desses três poderes que são a exceção a essa regra com idéias inovadoras, deixem-me explicar aqui porque não voltei no primeiro dia do ano como havia prometido.
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Participando vez ou outra com comentários no espaço de um colega de escritos, um jovem e idealista promotor que demonstra coragem e capacidade de entender as críticas ao poder que integra e que muitas vezes até receio ter magoado com as críticas aos nossos sistemas judiciário e político, ainda assim fico surpreendido quando os comentários que mando para seus artigos aparecem quando estou aqui esperando receber uma polida nota de recusa, visto que sua educação é visível em seus escritos. Pois no final do ano passado, após eu remeter um comentário crítico a uma nota laudatória de 14 de dezembro redigida por um outro promotor, elogiando a instituição a que pertence, após a publicação, li depois e nada surpreso a reclamação de um outro leitor que dizia textualmente:
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"...Esse tal Velker só faz criticas negativas em todos os textos!!!!! Olha lá!!! Tudo bem criticar mas só fazer críticas negativas demostra que algo deve estar errado com o crítico!!!!!..."
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Bem, fiquei a pensar que talvez ele tivesse razão. Em todo caso deve ter lido tudo o que escrevi em outros comentários. Pensei que talvez com o passar dos dias e virada do ano, num novo sistema político viesse à luz, um executivo pioneiro surgisse, um novo sistema judiciário se apresentasse. Decidi então não escrever enquanto a virada do ano não me mostrasse estar errado. E o que vi?
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O sistema político continua tão viciado, corrupto e falso como sempre foi. Depois das eleições e no final do ano, os políticos outorgaram-se um aumento de 67% em seus salários e vantagens obscenas e começaram a discursar sobre a volta da CPMF, enquanto que no período eleitoral nem um sussurro dessas coisas veio a ser ouvido nos discursos que prometiam a moralidade que eternamente chegará no ano que vem.
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O executivo agora chefiado por Dilma Roussef dedica-se como se vê em seus discursos de posse, a manter a arrecadação de todas as riquezas da nação para sua máquina partidária, esquecida a antiga "terrorista" dos discursos a favor do povo. Interessa fazer obras apenas para o povo que tem dinheiro e baixar a cabeça para negócios de comitês e federações de esporte internacionais.
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Depois da decisão de Lula em manter a salvo o terrorista Cesare Battisti aqui no Brasil, ficam agora os ministros do STF a postergarem uma decisão ao invés de enfrentarem de forma resoluta a expulsão do bandido, agora com status de refugiado político. O mesmo judiciário que prometeu uma revolta coletiva por causa de salários há alguns anos agora por nada clama e por nada se revolta.
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Depois de tudo isso e no dia de hoje revendo uma capa da revista "Veja" sobre as operações no Complexo do Alemão, onde lemos de forma estarrecedora como as Forças Armadas decidiram, pelo menos em parte, aceitarem seu rebaixamento para a situação de polícia auxiliar, decidi voltar a escrever.
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Mas receio que o colega leitor que me criticou tem motivos de sobra para repensar suas palavras. Peço que me desculpe por reclamar, mas não faço nada mais do que descrever o que vejo.
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E o cenário é dos mais desoladores. Da mesma forma é a descrição dele.