domingo, 24 de abril de 2011

P67 Egípcios não jogam futebol

Vendo os noticiários sobre a piora da situação na Síria e me lembrando de um texto que publiquei no bilogue "Oitavo-Dia", onde colaborei até seu término recente, achei que ele se encaixa na análise de certos acontecimentos atuais no Brasil.
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Enquanto os árabes experimentam revoltas atrás de revoltas com resultados significativos na deposição de regimes apodrecidos e que começaram com a queda do regime egípcio, o povo brasileiro já se mostra anestesiado bem antes do tempo pela esperta trama que foi a do ex-presidente Lula em conseguir a indicação do Brasil para sede da Copa de 2014 e das Olímpiadas de 2016, provocando urros de uma multidão perdida na ignorância dos imensos e inúteis custos que isso vai causar, com significativo proveito na época, da candidatura de Dilma Roussef, que cooptando ontem e hoje aventureiros e mercadores políticos, endossou plenamente esse absurdo sem sentido num país carente até mesmo de saneamento básico. Ao mesmo tempo os acertos secretos de empreiteiras e governo para a construção do inútil trem-bala ao custo de 50 bilhões de reais andam mais depressa do que o próprio trem. Se Lula trabalhou de um lado, sabe-se lá o quanto empresas estrangeiras trabalharam do outro para esse resultado.

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Parecendo aqui adepto de outro partido, sempre deixo claro que é o sistema político brasileiro atual, como um todo, seja lá qual partido represente é que está totalmente apodrecido. Não temos mais esquerda, direita ou líderes políticos autênticos. Temos apenas aproveitadores e corruptos, que às custas do trabalho e sofrimento de um povo mantido na ignorância, constroem enormes fortunas pessoais e deixam como legado apenas os restos de sua miséria política e moral. Deveríamos parar de jogar futebol um pouco que fosse, para nosso próprio bem.
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Caro amigo João
Sim, de fato não sou muito fã desse excesso de textos de futebol e digo isso sem a intenção de desagradar, mas devemos sim prestar atenção a um modo de pensar que deve ser revisto. Os povos latinos tem se notabilizado por essa atitude de um fascínio hipnótico pelo futebol, uma atitude até de bovina admiração por falsos heróis que nada mais fazem do que chutar uma bola de couro dentro de um trançado de barbante. Uma boa habilidade mecânica, um bom condicionamento físico e só. Esses mortais alçados à condição de deuses tem somente isso. Enquanto isso verdadeiros heróis nas mais diversas atividades que mantém uma comunidade unida, que a fazem progredir como coletividade humana, como nação que se destaca no cenário mundial realmente com algo a dizer e fazer no mundo permanecem ignorados, esquecidos. Pelo menos frente a essa multidão que só enxerga uma bola pulando num gramado. Fico em dúvida sobre o que mais atrai a atenção dessas multidões, se a bola ou o gramado.
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E adianta sim exprimir pontos de vista políticos com indignação porque é assim que se agregam os que pensam dessa forma a ponto de influir nos acontecimentos, haja visto os egípcios em seu notável exemplo, que sem nenhum gosto pelo futebol fizeram o que fizeram. O ex-ditador egípcio Hosny Mubarak já deve estar se lamentando ter confiado só na polícia. Se ele pelo menos tivesse pensado em inculcar na mente do seu povo o fanatismo do futebol, sim, estaria a salvo hoje.
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Até mesmo o senso de realizações se dilue no tempo na forma de uma mísera lembrança de glórias que nada mais são do que a repetição incessante de datas de "...quando ganhamos da seleção daquele país...". Que país? "...o mesmo que nos empresta dinheiro e constrói fábricas em nossa terra...". Inverte-se um ditado. Aos "vencedores" as batatas, aos "perdedores" o comando político e econômico de muitas nações. Talvez por isso no meio das torcidas sejam tão abundantes as roupas de palhaço.
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Examinando de um ponto de vista da atividade humana, claro, não só o futebol como os esportes olímpicos são de grande glória, inesquecível mesmo, pelos exemplos que nos mostram, mas de forma alguma devem ser tomados como último e grande apanágio das realizações. Ao que parece aqui no Brasil e vejo também que em Portugal, é assim que o futebol é visto. É um grande erro.
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Como latinos podemos exultar, até mesmo rir de um grupo de americanos que só tem a nos contar como perdem jogo após jogo e podemos mesmo derrotá-los numa partida amigável e ver, que ora essa, são mesmo esforçados mas perderam feio para nós. Terminado o jogo nos despedimos, voltamos para a nossa condição de desempregados, sub-empregados ou futuros emigrantes e ficamos no porto a acenar para o grupo de americanos que embarca no super porta-aviões Carl Vinson. O goleiro é engenheiro nuclear, os zagueiros pilotos dos mais modernos caças de combate, os atacantes que nem sequer ameaçaram o gol controlam a mais moderna sala de armas nucleares. E lá se vão eles, "derrotados", acenando para nós, "vencedores", enquanto amanhã nós tentaremos mais uma vez a fila do consulado americano tentando um visto para emigrar para o país dos "perdedores".
Talvez eu pinte com cores nada agradáveis essa apreciação pelo futebol, mas me parece que de forma um tanto errada, no mínimo condenável, demos atenção demais para isso e geração após geração, pais foram criando uma horda de filhos desmiolados e culturalmente anulados. Vejo isso aqui no Brasil e imagino se não é igual em Portugal. Crianças que voltam da escola e assim que se veem livres do uniforme, se põem na rua a chutar e chutar sem nenhum outro objetivo uma bola velha de couro, numa repetição insana dos seus "heróis". Depois, com um vocabulário mínimo brincam com paus e pedras, sim já regrediram a isso. Em notável contraste, crianças japonesas, coreanas e chinesas também brincam de futebol, mas dão-lhe apenas o valor de um folguedo de momento. Suas brincadeiras favoritas são jogos onde a inteligência é exercitada, os trabalhos como pesquisa nos laboratórios das escolas são valorizados e mesmo desfrutar das belezas da música clássica é coisa que os deixa fascinados. Nós latinos nos acostumamos com berros absurdos em grupo, em sair espancando as pessoas em torcidas organizadas, em viver num torpor alcoólico gritando o nome do time e alguns chamam a isso de paixão. Eu chamo de barbárie.
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O Brasil tem notável marca de incultura e falta de modos, em cenas deploravelmente protagonizadas pelos seus cidadãos, boa parte dessa falta de modos aprendida na histeria coletiva dos estádios. Exatamente por isso, décadas atrás a Argentina se considerava superior aos brasileiros e de fato era mesmo. Hoje o jogador argentino Messi pode vir ao Brasil e ao ser reconhecido num restaurante contar bonitas histórias sobre Maradona na Copa de 1978, quando a Argentina se mostrou uma "potência invencível" até com pretensões hegemônicas sobre a América Latina da época. Mas não vai falar nada da Guerra das Malvinas em 1982, quando a Argentina invadiu as ilhas e a Inglaterra mandou 42 navios de guerra para resolver a situação. As ululantes torcidas argentinas que saíram às ruas gritando como se estivessem dentro de um estádio logo descobriram que seus berros de nada adiantavam contra os aviões Sea Harrier ingleses. Resta saber quantos retratos de Maradona existiam dentro do cruzador argentino General Belgrano, afundado pelo submarino nuclear britânico Conqueror enquanto que o porta-aviões argentino 25 de Mayo ficava ancorado incapaz de enfrentar o poderio nuclear dos ingleses. O porta-aviões terminou desmontado e derretido em estaleiros indianos. Quantos retratos de Maradona existiriam lá dentro? Depois Messi gentilmente pagará a conta com pesos argentinos que foram impressos no Brasil. Sim, este ano o Brasil vai imprimir 50 milhões de cédulas para os argentinos que até isso não sabem mais fazer, mas continuam batendo em bumbos e urrando pelas ruas quando Messi entra em campo. Na vida nacional, um país vendido a multinacionais. Não longe dos estádios, crescem favelas estarrecedoras que não existiam há 40 anos. Que vencedores.
Sobre os russos então podemos falar tanta coisa. Pouco sabem ou pouco ligam para o Dínamo de Moscou. Ligam mesmo é para seu poderio militar, que tendo refeito o mapa do mundo após a 2a. Guerra Mundial, mesmo depois da queda da União Soviética e de um período de fome, voltam a deixar o mundo de respiração presa com Vladimir Putin, que nunca apareceu numa foto dentro de um estádio refazendo suas pretensões de hegemonia na Eurásia. Futebol? Vladimir Putin mal sabe como se chuta uma bola. Sua paixão são tanques e aviões.
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Por fim caro amigo, sem querer ser mal interpretado e muito menos parecer antipático, acho sim que devemos rever certos conceitos de vida, certas idéias de paixão que só tem, na conta final, servido para criar não só multidões, mas nações de desmiolados, incapazes de pensar sobre seu próprio povo, sobre sua própria nação de uma forma diferente que não sejam onze sujeitos chutando uma bola de couro para todos os lados. Alçados à condição de divindades e modelo de vida, são heróis vazios, falsos mesmo. Em Portugal não sei, mas no Brasil, esses falsos deuses, com uma vida pessoal sempre obscura, repleta de histórias policiais, de escândalos e excessos, de envolvimento com bandidos, me parecem tudo, menos heróis. Talvez por isso boa parte do povo brasileiro esteja assim, maltrapilho e ignorante, vestindo-se como um dos seus "heróis", chamado Rei do Roma, que quando não está em público seminú, aparece investigado em fotos onde abraça traficantes. Esse é o modelo de herói? Eu duvido.
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Herói mesmo é um homem como Deng-XiaoPing, que sobrevivendo na China aos expurgos da era de Mao-Tsé-Tung, levou até o fim, quase morrendo por isso, seu plano de uma China moderna e capaz de influir no cenário mundial. Implantando com mão de ferro as diretrizes de educação básica, média e superior e da economia, Deng não viveu o suficiente para ver a China que idealizou e que hoje muda o mapa do mundo. Uma China que ainda tem preservado como museu o clube onde os ingleses colocaram uma placa proibindo a entrada de cães e chineses e foi o mesmo Deng que viu isso que disse a Margareth Tatcher em 1982 que ele preferia ver Hong-Kong arrasada militarmente se não fosse devolvida aos chineses. Ele disse isso para a mesma Margareth Tatcher que naquele ano derrotava a "potência" argentina, mas que vendo o poder nuclear chinês traçou o plano de devolução da ilha para a China. Em 1997, um descendente dos ingleses que haviam comparado os chineses a cachorros arriou a bandeira inglesa do mastro e saiu chorando enquanto a bandeira chinesa subia vitoriosa. Deng-XiaoPing mal sabia que forma tinha uma bola de futebol ou como era jogado esse jogo, coisa de nações menores. E mesmo assim, convenhamos, com tudo o que ele fez pelo seu povo, isso sim foi um gol de placa. Por gente assim, por movimentos coletivos assim, aí sim vale a pena ser fanático. -
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quarta-feira, 13 de abril de 2011

P66 Liberem as armas

Num tiroteio já vivemos mesmo...
Depois de tudo o que aconteceu na escola do Realengo já aparecem bem mais cedo do que deveriam, os repórteres e políticos hipócritas que querem fazer o papel de "amigos da paz"...armada é claro, por guardas que eles pagam para não terem que atirar em alguém em defesa própria. Ou são covardes demais para isso ou não querem entrar num confronto. Nunca se sabe, o bandido pode ser mais rápido ao sacar a arma. Melhor pagar alguém para enfrentar o risco enquanto se recolhem ao doce convívio dos condomínios fechados.
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O caso da escola do Realengo pode ficar para uma observação tardia. Já aconteceu mesmo. É só mais um caso num longo caminho de fuzilamentos coletivos. Alguém lembra do massacre de 21 pessoas em Vigário Geral em 1993? As vítimas estavam desarmadas. Alguém lembra do massacre de 29 pessoas em Nova Iguaçu em 2005? Claro, as vítimas estavam desarmadas, de novo. Na escola do Realengo é lamentável que tenha acontecido mais esse massacre e as jovens vidas que se foram perderam-se numa tragédia inimaginável, mas houvesse guardas armados em cada andar daquela escola, dificilmente o assassino teria chegado até onde chegou.
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Há um exemplo que faz pensar quem tem coragem para isso. Uma nação como Israel, onde todos os cidadãos andam armados até com metralhadoras Uzi de 9 mm. ou fuzis M-16 enfrenta radicais islâmicos que entram em seu território e se explodem no meio da população. Dá para entender. Mas mesmo dessa nação armada até os dentes e que ensina em cursos de treinamento militar para suas crianças o que são armas, como funcionam e como usá-las em defesa própria nos vem uma lição. Seus alunos não espancam e nem atiram em seus professores e seus colegas de escola não entram atirando na escola para se vingarem das brigas com os colegas de classe. Como se explica isso?
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Desde 1994, sob as benção do governo da época e da alegria dos parlamentares de Brasília, muitos acusados de manterem trabalho escravo em suas fazendas no país, o cidadão de bem foi desarmado em campanhas ano após ano e o que temos visto desde então é a total supremacia dos bandidos e organizações criminosas dos mais variados tipos, desde o PCC paulista e sua insurreição de 2006 que deixou o Estado de São Paulo de joelhos até o tranquilo domínio das milícias no Rio de Janeiro que dominam pelo terror das armas que possuem, milhares e milhares de cidadãos das comunidades que escolhem para tomar de assalto. E quem tem armas para se defender? Ninguém. O governo editou leis para desarmar o cidadão para "defendê-lo". Resta saber a quem ele quis defender. O cidadão é que não foi.
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O certo é que mais que grupos de hipócritas, as redações do jornais abrigam jornalistas praticamente vendidos a uma campanha de desarmamento, que escrevem generosas páginas e mais páginas de estatísticas para justificar o desarmamento e publicam apenas pequenas notas de pessoas favoráveis ao direito do cidadão de armar-se para sua defesa ou nem mesmo isso. Há poucos anos atrás os jornalistas diziam que o Brasil tinha 5 milhões de armas ilegais. E como ficaram sabendo disso? Saíram perguntando em todas as casas quem tinha armas ilegais? E receberam 5 milhões de alegres respostas afirmativas? Agora depois do tiroteio na escola do Realengo, os mesmos jornalistas exultantes dizem que o número de armas ilegais aumentou para 16 milhões.
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Então temos que admitir que o número de bandidos ultrapassa as próprias Forças Armadas em 15 milhões e 700 mil bandidos armados, já que os jornalistas carimbam todas essas armas como em posse de bandidos. Ou então resta um explicação mais lógica. Eles simplesmente mentem como bem interessa no momento ou o cidadão decidiu, mesmo que às custas de enfrentar essas leis de desarmamento, armar-se para defender a si mesmo e sua família.
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O mais correto é liberar as armas para o armamento amplo, geral e irrestrito do cidadão. Tiroteio vai ter e dos grandes, mas já vivemos num tiroteio mesmo, grande diferença não vai fazer.
O certo é que num clima como o do Velho Oeste, onde os cidadãos decentes podiam se armar, se defender e até mesmo organizarem as patrulhas que caçavam bandidos, as chamadas "posses", as coisas correram de forma diferente. Os cidadãos de bem venceram e puderam viver e trabalhar em paz. A nação progrediu pelas suas leis e pela firmeza das penas aplicadas aos bandidos.
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Já no Brasil do cidadão desarmado e exposto aos bandidos super armados, dá para ver como as coisas caminham mal e dependendo desses jornalistas vendidos e desses políticos corruptos, vão caminhar pior ainda.

segunda-feira, 21 de março de 2011

P65 Simplesmente heróis

Uma linhagem de samurais...
Na foto acima vemos um grupo de pilotos kamikazes em 1945. Era comum antes de partirem para as missões de combate contra as forças navais americanas que tirassem fotos, mandadas depois como lembrança para suas famílias. Desses nenhum sobreviveu. Apresentando-se como voluntários frente ao avanço da frota americana no mar do Japão, com sua marinha destruída e sua força aérea reduzida a poucas centenas de aviões e até mesmo com munição racionada, eles aceitaram como última linha de defesa o plano de jogarem seus aviões contra os navios americanos com as bombas sob os aviões armadas e prontas para explodirem.
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O porta aviões americano Yorktown afundou na batalha aeronaval de Midway atingido por um ataque suicida do avião pilotado pelo Tenente Joichi Tomonaga. Já tendo participado do ataque à ilha de Midway, seu avião voltara avariado e ficara só com um tanque em condições de uso. Não teria como voltar da missão de ataque ao porta aviões. Ele decolou para sua última missão sabendo que não retornaria. Com a aproximação da frota americana, quando os kamikazes começaram seus ataques, 81 navios americanos foram atingidos. O resultado era sempre o mesmo, avarias graves ou afundamento.
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Na foto abaixo vemos o momento próximo do impacto de um avião kamikaze japonês contra o cruzador americano Missouri, enquanto a guarnição de artilheiros tenta atingi-lo com suas metralhadoras antiaéreas. Mesmo enfrentando o impacto das balas ele avançou até o fim. Não existem relatos de kamikazes que tenham desertado de sua missão. Sobreviventes existiram pelo fato de terem seus aviões avariados pelo fogo anti-aéreo caindo no mar ou então porque antes de sua partida a guerra terminou. Mas nenhum deles desonrou sua palavra de dar a vida para defender o Japão.
É exatamente essa linha de heróis que ressurge num momento trágico para o povo japonês depois do desastre natural que o atingiu e que provocou a reação nuclear descontrolada dos reatores da usina nuclear de Fukushima. Os bombeiros, pilotos de helicópteros e técnicos da usina que tentam diminuir o vazamento de radiação, todos voluntários, lutam para defender sua nação e seus cidadãos de uma situação ainda pior, o completo derretimento dos reatores e a dispersão de uma radioatividade dezenas de vezes mais forte e letal na atmosfera.
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Mas sabem de uma coisa. Que seus trajes de proteção, para uso em condições normais de trabalho são apenas uma proteção mínima, já que foram projetados apenas para tarefas de inspeção de partes dos reatores com radiação alta, mas sob controle quando a operação é em máxima força mas controlada por compartimentos que isolam a radiação e que ainda assim passa para o exterior. Hoje todo esse sistema de proteção está destruído e eles estão expostos de tal forma que por vezes tem que se afastarem antes que percam os sentidos.
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Sabem portanto que estão entregando suas vidas a uma morte precoce e dolorosa e o que é pior, lenta. Mas se entregam a esse sacrifício pelo amor ao seu país, para salvarem quantas pessoas puderem, enquanto as equipes de resgate na área também são aos poucos contaminadas, mas continuam sua tarefa de busca de sobreviventes e corpos e ao mesmo tempo coordenam a distribuição de víveres aos desabrigados. O código de honra e coragem dos antigos samurais não poderia ter seguidores mais corajosos do que estes.
O último grande ato de sacrifício no melhor estilo samurai foi o do escritor Yukio Mishima, que na adolescência acompanhou a guerra e suas consequências sobre o Japão, viu o reviver de sua nação e tornando-se um polêmico escritor, criou uma organização paramilitar com a missão de defender e reavivar comportamentos tradicionais de honra e decência que ele dizia estarem desaparecendo no Japão da década de 70, que para ele, se experimentava um progresso admirável, também trazia do Ocidente valores condenáveis como o indvidualismo exacerbado, a falta de lealdade e o hábito de viver em desonra, coisa não muito incomum na atitude de grandes corporações que viam apenas o lucro como valor máximo, comportamento que já havia também contaminado a política da época. Invadindo um quartel para exprimir frente aos soldados e à imprensa seu inconformismo com um manifesto apelando para o retorno aos valores de honra, percebeu que fora ignorado. Vendo que havia fracassado em sua missão, retirou-se para a sala do comando e ignorando os apelos dos comandantes que havia aprisionado, praticou o suicídio ritual dos samurais. Preferiu partir para a memória histórica do seu povo com honra do que viver perdido num labirinto de desculpas.
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Hoje vemos semelhantes atos de heroísmo, coragem e sacrifício por parte desse grupo de bombeiros, pilotos e funcionários, que na tentativa de resfriarem os reatores e de religarem a força das instalações semi-destruídas que reparam como podem numa corrida talvez inglória contra os fatos, não desistem de sua missão. Mesmo nos helicópteros, despejando toneladas de água sobre o material radioativo já quase em fusão, os pilotos são obrigados a se afastarem tamanha a dose de radiação que recebem. Da mesma forma os bombeiros que se aproximam dos reatores com os canhões de água sofrem as mesmas consequências. Enquanto isso, técnicos da usina, com seus trajes que dão uma proteção apenas precária contra a radiação se aproximam o máximo possível das instalações, tentando religar equipamentos de resfriamento para diminuírem a emissão radioativa e assim conseguirem tornar possível que o completo isolamento da radiação seja feito.
Hoje não é um combate contra um exército inimigo. A marinha americana que há dezenas de anos se preparava para invadir o Japão, hoje manda com seus navios, suprimentos, remédios e todo tipo de equipamento para ajudar na missão desses heróis.
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Com seus trajes já reconhecidos pelos espectadores do mundo todo, sensibilizados pela situação que se desenrola no Japão, os trabalhadores da usina travam uma guerra contra um inimigo temível. Existe uma grande possibilidade de que percam essa batalha e outros tenham que assumir seus lugares. Talvez mesmo essa guerra seja perdida, mas mesmo assim não desistem.
Já sabendo-se condenados pelas enormes quantidades de radiação que recebem nesse combate diário, continuam com toda sua coragem trabalhando na área da usina, agora um campo de batalha, mostrando não só ao seu povo, mas também aos cidadãos do mundo que existem ainda heróis anônimos, capazes dos mais altos sacrifícios em defesa do seu povo e dos valores mais altos de coragem, lealdade e honra.
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emos aqui no Brasil uma profunda ligação e laços de sentimento e irmandade com o povo japonês, cuja colônia é descendente das levas de milhares de imigrantes que vieram para cá tentando uma vida melhor. Com seu trabalho duro e com sua notável disciplina oriental, ajudaram a moldar e formar um tipo de cultura no Brasil que é de grande valor. Mesmo sensibilizados como qualquer povo do mundo pelo que lá acontece, sentimos com mais intensidade do que os outros estrangeiros o que ainda sucede naquela terra.

Não podemos escolher quando será a nossa morte, mas se um dia estivermos em situação semelhante, deveremos numa prece silenciosa pedir a mesma coragem para um ato de tamanho heroísmo.
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Agora, em prece igualmente silenciosa mas carregada da mais profunda emoção, devemos todos nós elevar nossos pensamentos e uma oração a esses heróis, que com sua coragem e entrega, tornam possível a todos nós que ainda acreditemos no ser humano e em sua capacidade de dar a vida pelo seu país e pelo seu povo, com seus corações repletos dos melhores sentimentos de altruísmo e abnegação.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

P64 Não gosto de matar ratos

Os ratos, na verdade, são inocentes...
Ao voltar para casa ontem encontrei morto, afogado na ratoeira, um pequeno ratinho. Lamentei pelo jeito que o animal morreu. A água da chuva havia subido perto do bueiro onde eu coloquei a ratoeira e o pobre animal morreu afogado alí. Os amigos leitores haverão de estranhar. Mas porquê lamentar? Ora, fazendo as contas, imagino que a morte do bichinho foi penosa, carregada de agonia, a água subindo e ele preso na ratoeira, tentando escapar e morrendo aos poucos. Contando os outros dois que havia capturado na mesma ratoeira, são três. Entrada de bueiro perto de casa é assim mesmo. Os dois que peguei antes, com calma levei para um descampado aqui perto e soltei na noite. Leis da natureza. No descampado ou são pegos por uma coruja ou outro predador, mas ao menos tem uma chance na luta pela vida. Até mesmo um rato merece isso. A alternativa é matar o bicho ao abrir a portinha da ratoeira com um pisão ou uma porretada, coisa nada agradável de fazer.
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Ao mesmo tempo em que pegava o ratinho morto e o punha no saco de lixo, pensava que afinal, mesmo sendo considerado um animal imundo, ele não tinha culpa de ser assim. Os ratos, seja como for, assim foram feitos pela Natureza e nada mais fazem do que o mesmo que nós, apenas tentam viver. Eles nem fazem idéia do mal que nos causam, apenas chegam e roem o que tem que roer, passam as doenças que tem que passar e são absolutamente inconscientes disso. Apenas vivem, sempre assustados e escondidos em bueiros, sempre no limite da fome e caçados pelos animais maiores. Eles não tem culpa de serem como são. Nenhuma culpa de viverem escondidos, de serem perigosos, de serem sujos.
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Depois de deixar o corpo dele na lata de lixo, entrei em casa e liguei o televisor. Como não poderia deixar de ser, apareceu a notícia de mais um caso de corrupção onde como já é tradicional, políticos estão envolvidos. Um deputado estadual por São Paulo dizia que não tem nada de errado em pagar o aluguel de parentes com verbas estaduais. Enquanto isso no hospital da cidade dele, um pai desesperado depois de três dias sem atendimento médico para o filho com o braço quebrado recorria à polícia para tentar conseguir socorro. Nem falo dos pacientes que morreram ou agonizam sem remédios. Enquanto o hospital está abandonado sem verbas, os parentes de um político corrupto recebem verbas estaduais para pagarem o aluguel. Quem é um dos responsáveis por isso? Um político corrupto. No Piauí uma reportagem mostra que 74 ambulâncias que deveriam estar trabalhando para atendimento de UTI móvel estão abandonadas num pátio, estragando-se dia a dia. Quem provoca desastres assim? Políticos corruptos.
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Mais uma notícia mostra que o corte de 1 bilhão de reais das despesas do governo vai atingir diretamente a educação. A presidente eleita Dilma Roussef já começa a articular votos para o aumento da idade mínima da aposentadoria. Quem vota a favor disso? Políticos corruptos, que ao mesmo tempo desfrutam de aposentadoria privilegiada. Surge também uma notícia de que governadores estão se articulando com deputados federais para tentarem a volta da CPMF com outro nome, alegando aumento de despesas na saúde. Claro, é só para roubar mesmo. Em todos os anos de CPMF isso nunca ajudou em nada. Além disso quem vai pagar a conta de mais 8.000 vereadores que foram eleitos na última eleição por causa de uma emenda constitucional? E quem é o culpado por tudo isso? O político corrupto.

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Aborrecido e ao mesmo tempo lembrando do ratinho morto, comecei a fazer algumas comparações entre a ação dos ratos e dos políticos. Percebi que os ratos além de não terem culpa de serem como são, provocam danos bem menores e são bem menos perigosos do que os políticos, que além de terem culpa de serem como são, provocam danos irreparáveis e milhares de mortes de cidadãos todos os anos.
Fui me lembrando de todas as reportagens sobre a destruição da nossa educação e de quem é a culpa disso tudo. Abandono de escolas construídas por seus antecessores, obras de escolas abandonadas enquanto vereadores e prefeitos se concedem aumentos obscenos, merenda escolar roubada ou dada a animais em fazendas, materiais superfaturados do orçamento federal para escolas que não foram construídas e de quem é a culpa? Dos políticos. Que graças a uma estrutura de poder corrupta administram nosso país e roubam o que podem para eles. Cultura, educação, ciência, isso não tem nenhum valor para eles, interessa apenas o que podem roubar para viverem bem às custas do dinheiro dos impostos, deixando pais, mães e seus filhos desesperados na porta das escolas que ficam sem vagas, sem professores, sem material escolar, sem segurança. Enquanto isso políticos vivem em mansões com esse dinheiro roubado, dão a melhor educação a seus filhos e já é habitual que enfiem seus parentes na administração pública para roubarem mais.
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Os ratos podem atacar uma escola, podem roer um ou outro caderno ou algum material escolar, mas é só isso que fazem. São sujos, vivem escondidos à espreita do que vão atacar e só trazem doenças. Mas não tem culpa do que fazem. Eles não tem consciência de serem assim. No fundo são inocentes.
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Já os políticos sabem que são assim. Que são sujos, que vivem à espreita do que poderão roubar, que são uma doença da nossa sociedade e é assim que gostam de viver e é assim que viverão até serem mortos da mesma forma que as pessoas acham que os ratos devem ser.
Me lembrei dos casos onde pacientes morreram à mingua em hospitais públicos, dos 26 bebês que morreram numa maternidade do Amapá por falta de material hospitalar adequado, dos doentes de tuberculose da favela da Rocinha que não recebem mais os remédios, dos pacientes de São Paulo que levam até 6 meses para receberem quimioterapia contra o câncer, da epidemia de dengue com milhares de doentes pelo Brasil afora, tudo sempre por causa da falta de verbas, que faltam para o socorro dos pacientes mas que não faltam para serem roubadas pelos políticos que administram o sistema de saúde e as verbas que vão para eles e seus cúmplices nomeados para a administração.
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Um rato pode entrar em um hospital e roer alguns lençóis e alguns fichários médicos, mas fará muito menos mal do que os políticos que de forma premeditada roubam verbas, desviam recursos, superfaturam preços de remédios sabendo que estão causando dor e morte para milhares de pacientes que hoje gritam na porta dos hospitais públicos. Os ratos de verdade mesmo pelo menos não tem consciência do mal que causam. Os políticos sabem que fazem esse mal, mas isso é lucrativo para eles. Sabem que estão causando dor e sofrimento e não se importam nem um pouco com isso e vão continuar a fazer isso até que sejam mortos como ratos. Os ratos de verdade mesmo pelo menos não tem consciência do mal que causam. Os políticos sabem que causam todo esse mal, mas isso é traz lucros para eles e assim vai ser enquanto estiverem no poder.
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Pensando em tudo isso me lembrei do corpo do ratinho na ratoeira e imaginei seu desespero, as águas subindo, ele se afogando. Em sua pequena consciência em agonia deve ter pensado que mal teria feito para que algum malvado o matasse assim. Nenhum, ele era inocente, apenas vivia como a Natureza o fez.
Me lembrei também do prédio que é chamado de congresso nacional onde onde uma verdadeira cria de seres humanos que abdicaram de sua humanidade para se tornarem animais do mesmo tipo hoje se alimentam da vitalidade, do trabalho e acima de tudo do sofrimento do povo brasileiro.
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Enquanto os ratos vivem escondidos em bueiros imundos, os políticos vivem em gabinetes iluminados para planejarem seus ataques ao cidadão que paga impostos. Enquanto os ratos vivem no limite do medo e sempre fugindo, os políticos vivem cometendo seus crimes e dispõem de imunidades para não serem alcançados pela Justiça. Enquanto os ratos são pisados e mortos, os políticos vivem pisando no povo brasileiro e no Brasil inteiro e causando só desgraças no dia a dia de um povo sofrido.
Foi assim que descobri que não gosto de matar ratos. Mas políticos eu mataria sem problemas de consciência. No Brasil de hoje, isso já se tornou até uma precaução de higine e segurança pública.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

P63 Tristes trópicos

Já dizia Levi-Strauss...Tristes Trópicos...
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Hoje me lembrei do livro que o francês Claude Levi-Strauss publicou em 1955 descrevendo sua viagem ao Brasil em 1935, onde faz um relato das sociedades indígenas e da sociedade brasileira que ele conheceu na viagem. O livro com o título de "Tristes Trópicos" é um relato de suas impressões. Fiquei pensando que tipo de livro ele escreveria se voltasse ao Brasil hoje e passeasse pelas ruas como qualquer um. Sabendo antes de chegar ao Brasil que 76 anos teriam se passado ele pensaria num título talvez como "Trópicos Modernos". Porém ao andar logo nos primeiros quarteirões é provável que ele desanimasse de vez do novo nome. A par da evolução tecnológica das coisas, Levi-Strauss veria abismado a inacreditável involução do povo brasileiro, que ele encontraria decadente em seus costumes e falta de modos em geral. O tempo passou, as máquinas progrediram, o brasileiro regrediu. E regrediu absurdamente.
Uma das primeiras coisas que deixaria o francês atônito seria a inacreditável quantidade de botecos que ele encontraria e o tipo comum de brasileiro enfiado dentro deles, barrigudo, vestido com um bermudão e um chinelão, copo de cerveja ou cachaça na mão e olhando uma moderna televisão sempre sintonizada num canal de futebol. Existem os que assistem os esportes na televisão, num lazer aprumado, com uma bebida contida. Mas no geral, pinguço por acaso consegue pensar em outra coisa?
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É claro que existe ainda uma parte que rejeita essas coisas e que se veste corretamente, uns sempre arrumados, mesmo humildes e trabalhando duramente com sua calça jeans, camiseta e tênis, limpos e bem descontraídos e outros mais formais compondo um cenário que ainda dá esperanças de que não estejamos na borda da completa regressão social e moral. Outros bem mais à vontade, usam bermudas impecáveis com tênis, meias e camisetas limpos, compondo um traje de verão ou de lazer. Mas já começam a perder para a verdadeira horda de bárbaros que vemos nas ruas, mercados e farmácias. Esses mais aprumados já começam a aparecer não como brasileiros, mas como colonos de uma metrópole, rodeados de aborígenes incultos que veem civilização só nos emblemas de latas de cerveja ou garrafas de cachaça. E olham postes e esquinas da mesma forma que um cachorro ao sentir necessidade de se aliviar. Banheiro? Sanitários? Isso é coisa de civilizados. Não se dão a esse trabalho.
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Deixando de olhar as cenas do boteco, não raramente ele encontraria assim pessoas urinando na rua. Não é difícil de encontrar esses tipos por aí. Em Salvador, na Bahia, já virou parte da paisagem. No Rio de Janeiro a polícia é obrigada a sair pelas ruas multando as pessoas que flagra urinando nas ruas. A FIFA mandou. Quer tudo bonito para a Copa do Mundo. Mais uma surprêsa para Levi-Strauss. Um orgão que cuida de esporte amador manda até no exército dito do Brasil. Adivinha quem mandou todos subirem o morro do Alemão de farda e fuzil na mão?
Levi-Strauss acostumado com as ruas de Paris com gente bem arrumada e decentemente trajada ficaria horrorizado de ver homens feitos, numa boa situação econômica e social andando às pencas na rua só de chinelão e bermuda. O que antes ele teria atribuído à pobreza veria que sim, realmente é um caso de pobreza, mas no caso pobreza de espírito e falta de modos, falta de educação da grossa que eles mesmos tratam de ensinar para seus filhos. O que mais pode levar os brasileiros a andarem assim, maltrapilhos, com a borda da cueca aparecendo no bermudão sem cinto e entrando no supermecado, alguns tratando de levantar o bermudão já caindo e deixando o traseiro exposto? Ao lado deles, suas mulheres, seus filhos e filhas achando isso a coisa mais natural do mundo. É o que os filhos aprendem. Se o pai, modelo de herói para os filhos anda assim pelas ruas e pega inúmeras latas de cerveja nas prateleiras e já sai bebendo na rua, entra no carro e sai dirigindo bebendo, o que mais os filhos podem pensar? Ser desmazelado, maltrapilho e pinguço é o modo certo de sair na rua.
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Talvez parando perto de uma banca para ler as notícias do Brasil moderno e tentar se recompor, Levi-Strauss veria igualmente horrorizado que a última moda agora é o dinheiro da corrupção sendo enfiado nas roupas íntimas. E poderia ver casos e mais casos de corrupção em que os corruptos foram flagrados fazendo exatamente isso, enfiando o dinheiro na cueca.
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Vendo todas essas cenas, em que as roupas íntimas são usadas como roupas de passeio, em que pais e mães dão aos filhos tristes exemplos de falta de cultura, falta de modos e falta de higiene, Levi-Strauss se lembraria das tribos que viu em contato com os brancos aqui no Brasil, que aos poucos foram se aculturando e procurando absorver da sociedade do homem branco o que viam de melhor. Se lembraria de índios que deixaram de usar tangas para começarem a usar calças, camisas e sapatos, se trajando decentemente. Ao mesmo tempo em que veria isso, ele constataria que com modernas máquinas de costura industrial capazes de fabricarem centenas de peças de roupa por hora, os brasileiros estariam, ao lado delas deixando de usarem roupas para regredirem ao estado de nudez dos índios não por uma opção pensada mas sim por absoluto desmazelo. E com as mais modernas instalações sanitárias hoje disponíveis em qualquer casa, ainda por cima estariam os brasileiros já acostumados a fazerem necessidades nas ruas porque acham divertido. Levi-Strauss se perguntaria se esse seria mesmo o Brasil moderno. Não teria errado de país em sua viagem?
Aprumados e bem compostos na paisagem estariam os cachorros que ele veria pelas ruas, que ao menos em sua natureza animal estariam mais educados e mais apresentáveis do que seus donos que se acreditam superiores a eles. Alguns desses bem postos animais as pessoas chutam na confusão de uma situação em que se confrontam com pontapés e mordidas, infelizmente momentâneamente cegos pelo ânimos esquentados de situações insólitas.
Assim Levi-Strauss encerraria sua melancólica viagem de retorno ao país que conheceu há tanto tempo. Ao retornar para seu recanto, quando lhe perguntassem como tinha sido a viagem, talvez por zelo piedoso pelos brasileiros ele diria que foi apenas um passeio em que viu coisas interessantes a relatar em seu novo livro.
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O nome do novo livro? "Tristes Trópicos Ainda".

sábado, 12 de fevereiro de 2011

P62 Agora todo mundo corre

Se um pontapé faz isso, imagine um tiro...
Mais um dia em que vou para a casa da minha mãe, vazia desde sua morte. Tomo conta dela há tempos. Ainda não sei, mas vou chutar um amigo que ainda nem conheço. E há tempos tento controlar os ânimos com os moleques de rua. Mal-educados, relaxados e sujos como os pais, sempre na calçada maquinando o que não presta. Já troquei várias vidraças da janela. O divertimento desses pequenos animais? Chutar uma bola de futebol na janela quando estou longe. Quando chego como em outras vezes já aconteceu e falo com eles, mentem de forma descarada, crentes de que não foram vistos. E além disso, no Brasil, o que pode ser feito com crianças e adolescentes? Nada. O ECA ou a lei do Estatuto da Criança e do Adolescente lhes permite todas as patifarias, crimes e atentados contra as pessoas sempre com a hipocrisia de "proteger os menores" ou como todos sabemos, os famosos "de menor". Mas pelo estado de raiva que me toma conta, já vi que hoje vai ser diferente. Sempre acreditei que ECA está mais para Escola do Crime para Adolescentes isso sim.
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Vindo pela rua vejo de novo os pequenos vagabundos chutando a bola, até que consigo devagar chegar a meio quarteirão de distância quando eles me veem. Os dois maiores já espertos na vagabundagem saem pelo quarteirão acima e largam o menorzinho com a bola enroscada entre a sargeta e uma laje de cimento. O pequeno, já escolado na mentira tenta me dizer que "...está vendo a bola aqui, eu não estava chutando a bola...". Nem eu acreditei que tivesse voz de tenor assim para lhe berrar tão alto todos os palavrões possíveis. Mereceu, pouco me interessa o tamanho ou idade, já é um vagabundo com esse tamanho.
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Pareço agora um covarde. E se eu estivesse de frente com dois marmanjos? Mas continuo subindo a rua. E gritando todos os palavrões e piores adjetivos dirigidos aos dois sem-vergonhas que se encostaram num portão. Os vizinhos começam a sair porta afora para ver o que está acontecendo. Ótimo, é isso mesmo que quero. Dobro a esquina e vejo os dois vagabundos um pouco mais crescidos pondo em prática a primeira tática dos "de menor" malandros: se encostarem no portão de casa e fazerem de conta que não é com eles.

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Ora, parece que não está dando certo, eles olham e o sujeito continua subindo a rua, gritando e o que é pior, está indo para cima deles. O outro menorzinho já foi para sua casa que nem sei onde é. Melhor dizendo, esconderijo. Os "de menor" usam outra tática segura nesses casos e entram portão adentro. Pronto. Verdadeira proteção que nem uma embaixada oferece. Do portão para cá nem a polícia entra, estamos a salvo pensam. Continuo chegando e gritando, vizinhos todos na rua. Já imagino a polícia chegando e me prendendo e estou pouco ligando. Depois volto aqui e jogo um tijolo na casa desse desgraçado. O casal de idosos que me havia dito não ter mais paz com esses moleques me olha com um pequeno sorriso vendo o que vai acontecer. E acontece.
Vendo o portão fechado, dou-lhe um pontapé com toda a raiva que sinto. Ora essa, é assim que os ladrões arrombam casas. O portão que parecia firme se abre e bate de lado. O encaixe da fechadura cai grudado em um pedaço de tijolo e cimento. Os "de menor" me olham de olhos arregalados e entro gritando para eles todos os palavrões que já havia gritado na rua. Os três cachorros, defendendo sua casa avançam e um deles me crava os dentes na perna. Dou-lhe um pontapé e ele sai de lado. Sem saber chutei um amigo, o único sujeito decente daquela casa. Os palavrões continuam. Impublicáveis. Os mais suaves "...filhos de vagabundos...", "...agora todo mundo corre..." e por aí foi enquanto os "de menor" sumiam porta adentro e olha só, aparecem dois marmanjos. Pronto, eu sou menor que eles, é certo, antes da polícia chegar vou levar murros e pontapés e ser jogado na rua, miseravelmente quebrado. Não estou nem aí, depois que tirar a última bandagem volto aqui e cobro geral.
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Como já é habitual nos dias de hoje, os dois fazem parte da medonha figura em que tem se tornado o brasileiro típico. Chinelão, bermuda e um barrigão que completa a aparência de desmazelo e relaxo. A discussão começa, palavras feias de cada lado, mas ora essa, um deles me olha de alto a baixo de cara feia, põe as mãos na cintura e depois vai para dentro da casa. Acho que vai pegar uma arma, dane-se, estou pouco ligando. Continuo discutindo com o outro que também me olha de alto a baixo e me diz uma frase que me deixa desnorteado. Terei invadido a casa errada? Depois de arrebentar seu portão, gritar todos os palavrões a quem julgo seu filho, depois de todas essas cenas quando ele deveria avançar para cima de mim aos murros, ele me diz que:
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- Você não pode invadir o meu quintal e chutar o meu cachorro.
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Deixando claro a ele que estava alí por causa da irresponsabilidade e vagabundagem do seu filho e que as consequências seriam sempre essas se ele aprontasse bagunça novamente, trocamos mais umas palavras nada amigáveis e saio, com ele me dizendo que vai ver isso com o filho dele. Então era filho mesmo, mas ele se mostrou mais preocupado com o cachorro. Que filho mais reles. Seja lá como for, os dois pequenos meliantes já seguem os pais, bermudão e chinelos imundos nos pés. O sujeito que havia entrado na casa sai sem arma nenhuma. Apuro os ouvidos e não escuto a sirene do carro de polícia, então não chamaram ninguém.
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Descendo a rua, me lembro dos botecos onde tipos assim são a presença contínua, habitual, retrato desesperador do povo decaído em que tem se tornado o brasileiro destes dias. Sempre desmazelado e relaxado. Com esse exemplo que tipos de filhos esperam criar? Se é que criam. Os filhos olham para seus pais assim e pensam que se os pais, exemplo maior, andam pelas ruas seminús, incapazes de colocarem sapatos, uma roupa decente, de se mostrarem higiênicos, asseados, então o certo é isso, andar na rua como o papai. Como decaímos com o regime dito de "democracia e cidadania". O negócio é sentar o pé ou bala se for preciso. Desci a rua pensando que se um pontapé faz isso, o que fará um tiro então?

Na rua os vizinhos em praticamente todas as casas, olhando tudo. Acho é pouco, quero mais que o sujeito morra de vergonha. O casal de velhos ainda apreciava a coisa toda. E eu pensava como é que dois sujeitos maiores do que eu não me moeram de pancadas? Eu devia estar mesmo com uma cara de demônio. Sinto a perna doer e aí vejo na perna esquerda o rasgão e percebo uma pequena mancha de sangue. A dentada do cachorro, único amigo e figura decente e aprumada alí naquela casa, que coisa. No calor da situação não nos encontramos de forma amigável. Me viro para pegar a chave e vejo no bolso da perna direita o volume do molho de chaves junto com o aparelho que toca MP3. Só pode ser isso.
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Olho novamente e vejo que o volume no bolso parecia de forma convincente uma pequena pistola automática, as chaves parecendo uma coronha e o tocador de MP3 o cano. Não consigo imaginar outra coisa. Me lembro do outro homem me olhando de alto a baixo e ao invés de avançar para cima de mim, virou-se e entrou na casa. Terá sido por isto? Me lembro da olhada do outro também e a discussão que se seguiu depois e ele preocupado em defender o cachorro.
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Tudo indica que foi isso. Chega um sujeito chutando o portão, gritando coisas horríveis e os dois maiores do que eu saem e ficam só na saída e numa pequena discussão. Olho de novo. Parece mesmo o contorno de uma arma. É isso aí. Você trata certas pessoas com decência e dão risada de você. Dizem para você se danar. Aí você mostra que está disposto a cometer atos de violência extrema e o que fazem? São cuidadosas e dizem que isso não vai acontecer de novo. Sim, a violência funciona.
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Deixo a casa da minha mãe arrumada e sei que infelizmente ainda terei problemas. Não vou viver em guerra com o mundo, mas de vez em quando vou aprontar com ele. Em casa, depois de passar um antibiótico na perna, me ponho a rememorar tudo. Depois durmo o sono dos anjos.
Ainda por cima a justa violência faz bem ao espírito.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

P61 Chutei um amigo

Depois a gente se desculpa...
Com essa história do amigo chutado dou sequência ao texto anterior que se encadeia com ele e com os próximos, porque para comparar e atribuir valores às coisas precisamos, que surrada lógica, de coisas. E muitas vezes para fazer isso com seres humanos, precisamos até de animais. Que situação. Mas como é que se chuta um amigo? Simples, não o reconhecendo à primeira vista numa situação onde decididamente você percebeu que a violência é a única saída. E o mais interessante é que ela funciona. Dizem que ela se volta contra a gente, mas no placar geral, com os bons recebendo a violência sem terem feito nada para merecê-la, descobri, ou melhor constatei mais uma vez que ela é útil, necessária, tem efeitos e principalmente, faz bem para o estado de espírito. Você é violento quando é necessário e volta para casa em paz, certo de ter feito o que era preciso.
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Você é educado na maioria das ocasiões, resolve tudo sempre que possível por bem. Está tudo muito bem assim. Na maioria das vezes em que não é possível, o dito cidadão de bem resigna-se frente aos patifes e acredita que passar raiva em casa relembrando frases pacifistas é a mais nobre das virtudes. Engana-se quem pensa assim. Você não vai viver em guerra com o mundo, mas que a violência dá bons resultados em muitos casos, dá sim. Tem vez que dá errado mas e daí? Quantos cidadãos já não levaram a pior exatamente porque acharam um dever sagrado serem tão pacíficos quanto o próprio Ghandi, que por sinal morreu com três tiros sem reagir? E ia reagir de que jeito se ele, por fé, só usava uma bengalinha e uma túnica branca?
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Existe uma grande diferença entre quem não reage a uma agressão tendo condições de exercer a violência porque procura dar mais uma chance ao diálogo e entre quem não reage a qualquer violência que venha a sofrer porque simplesmente se colocou na posição de não poder reagir e renunciou a todos os meios para isso. Mais pacifista é quem tem condições de revidar a violência sofrida e não o faz porque percebe que ali cabe mais uma chance para o entendimento. E se decidir revidar, muito bem, está certo. É muito humano.
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Há uma violência que você sofre que é uma agressão descabida, injusta. E há uma violência que é exercida em resposta contra esse agressor que é uma justa retaliação, um ato de violência que machuca física ou moralmente o agressor e mostra a ele que sim, existem consequências para seus desatinos, se ele estava tranquilo pensando que nada lhe aconteceria. Mais do que tranquilos, a maioria dos agressores que agem assim são insolentes.
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E foi assim, no revide de uma série de aborrecimentos que acabei chutando um amigo, que ora essa, no seu devido papel de guardião e com uma decidida mordida, me abriu um rasgão na calça e um furo na perna com um dente afiado. No calor da situação, levou um chute. Me pego arrependido de ter chutado, tal a confusão da situação, o único amigo do lugar em que entrei, também depois de um bem aplicado pontapé na porta.
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Mas as coisas são assim na vida. Nem eu poderia ter de imediato reconhecido o amigo, nem ele me vendo naquelas condições poderia me ter reconhecido de igual forma. Espero que um dia possamos nos encontrar em outra situação. E foi assim que um amigo canino, da raça que em sua essência e comportamento tem se mostrado nestes tempos melhor do que a maioria dos seres da raça dos humanos, que se pretendem superiores a eles, foi, creio eu, para um canto curtir suas dores, enquanto eu aqui em casa passava antibiótico no furo da perna e olhava o rasgão na calça.
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De qualquer forma, louvável sua atitude e coragem de guardião de um local que ele julga habitado por seres decentes. Pobre animal. Soubesse ele das vilezas que guarda e certamente teria sido meu aliado, pondo seus dentes junto do meu pontapé no castigo dos malfeitores.
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Sim, a violência funciona e faz bem para a paz de espírito quando meditamos sobre tudo depois.
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A lamentar apenas ter chutado um amigo por total engano, ao qual estamos sujeitos nas ocorrências da vida.