domingo, 15 de maio de 2011

P69 A foto que você não pode ver

Fotos formam opiniões quando são mostradas...ou até mesmo escondidas...
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Não é intenção minha mostrar fotos de guerra como as que seguem abaixo por descaso com os leitores. As fotos são chocantes, mas retratam o que é uma guerra e o trabalho notável de fotógrafos estrangeiros durante a guerra do Vietnã, uma das piores em que os americanos entraram e que foi talvez a última onde os jornalistas puderam trabalhar sem entraves, mostrando ao seu país e ao mundo o que lá acontecia. Foi um dos últimos acontecimentos onde os militares americanos mantiveram a tradição de mostrar o que acontecia, coisa que faziam desde os tempos da guerra civil americana em 1860.
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Na guerra do Iraque, a censura dos militares americanos é visível. Muitas das fotos mostradas nos dias de hoje vem de jornalistas que escapam dessa censura ou mesmo de cidadãos que registram as cenas e as colocam na Internet, de onde vencem qualquer impedimento. Ameaças de morte dos soldados a jornalistas no Iraque já se tornaram coisa comum. Trabalham quando não intimidados, arriscados a não poderem mostrar o que registraram. Que tipo de soldado procura ocultar o registro das coisas que são feitas? Somente os que sabem que estão cometendo atos, que longe dos combates, podem ser vistos como crimes de guerra.
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A morte de Osama Bin Laden recentemente anunciada com grande propaganda pelo mundo afora, traz junto do que alguns jornalistas proclamaram como uma espetacular vitória, uma atitude estranha mas reveladora do que aconteceu. Alegando que a foto de Bin Laden morto só acirraria o ódio dos radicais islâmicos contra os americanos, a Casa Branca mesmo tendo assistido a tudo em áudio e vídeo transmitidos ao vivo e a cores pelos soldados americanos, achou que o melhor a fazer seria ocultar tudo o que foi gravado. Todo o meticuloso registro de imagens e palavras ficou, por enquanto, para sempre oculto, sendo liberadas apenas algumas fotos de parentes de Bin Laden também mortos.
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Nas grandes cidades da Europa e da América, depois de um momento de júbilo onde os cidadãos deram vazão à sua alegria, todos viram-se subitamente envolvidos por um sentimento de medo. Em Nova Iorque muitos americanos passaram a recusar táxis dirigidos por imigrantes paquistaneses ou indianos. Na Inglaterra coisa parecida também acontece dentro do metrô, onde parar perto de um imigrante indiano provoca desconforto. Na Espanha, a mesma coisa dentro de trens. Algo mais além do secular racismo europeu e americano hoje permeia a vida nessas cidades. Um certo receio desceu como uma névoa, com o sentimento silencioso de que afinal pode haver uma vingança mesmo. 80 cadetes paquistaneses já pagaram a conta pela morte do terrorista, mortos por um suicida que entrou no ônibus que os levava e detonou os explosivos que carregava. Na Europa, na América, quem será o "premiado" por isso tudo? Será que pode acontecer mesmo? Não teria sido melhor terem capturado Bin Laden vivo para um julgamento? Porque estão escondendo tudo? É o novo receio que toma conta de todos, com uma névoa de incerteza baixando sobre as grandes capitais do mundo.
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Abaixo seguem fotos famosas das das guerras onde os americanos entraram e a censura ficou de fora.
1965. A revista Life mostra a foto de um prisioneiro do exército americano sendo levado para interrogatório. Geralmente eram entregues aos militares sul-vietnamitas, que além da tortura costumavam executá-los sumariamente. Os leitores do mundo puderam saber de tudo isso.
1967. Um coronel do exército sul-vietnamita executa a queima-roupa um suspeito de ser terrorista, durante combates de rua em Saigon. A foto provocou tal comoção na América que iniciou os protestos da população contra a guerra. O mundo todo viu essa foto.
1968. Homens, mulheres e crianças sul-vietnamitas da aldeia de My Lai executados por soldados americanos, num massacre que marcou o exército americano para sempre. A população dividiu-se completamente, com a maioria exigindo o fim da guerra. Jovens americanos chamados para o serviço militar passaram a fugir para o Canadá.
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Abaixo, fotos da guerra do Iraque, cuja invasão final aconteceu em 2003 e onde a censura entrou junto com as tropas.
Guerra do Iraque, sem data. Soldado americano socorre colega gravemente ferido após combates com os insurgentes iraquianos. Apesar da máquina militar americana ser de uma potência esmagadora, estão longe de terem tornado o Iraque seguro. O grande receio dos censores militares é o aumento do questionamento da guerra.
Prisão de Abu Ghraib no Iraque, sem data. Militar americano tortura prisioneiro iraquiano, atiçando um cão de guarda contra ele. As demais fotos, levadas para fora de forma clandestina deixaram não só o governo como o exército americano em situação insustentável. O mundo todo viu.
Guerra do Iraque, sem data. Embarque dos corpos de soldados americanos mortos no Iraque. Com uma média de 3 mortes por dia, com os atentados e combates tipo guerrilha efetuados pelos insurgente iraquianos, o exército americano não tem como proclamar uma vitória definitiva. Censores militares procuram evitar fotos assim, mas não tem como impedir que os próprios soldados façam as fotos.
Guerra do Iraque, sem data. Criança iraquiana morta após ação das forças americanas é carregada por um morador local. Os censores militares sabem do impacto e questionamentos que fotos assim levantam. Mas o mundo acaba vendo.
Osama Bin Laden, sem data. Em local ignorado, vivo e por vezes aparecendo em vídeos exortando seus seguidores a continuarem com atentados pelo mundo, onde pudessem atingir os americanos e seus aliados. Fotos e vídeos assim o governo americano sempre fez questão de mostrar e difundir da forma mais completa possível. Justificava qualquer guerra.
O quadro negro acima seria a foto de Osama Bin Laden morto em 02 de maio de 2011, em sua casa em Abottabad, no Paquistão. Não faltam informações de data, hora e local, tudo fornecido pelos comunicados do governo americano após terem anunciado ao mundo o feito. Segundo o porta-voz da Casa Branca, as tropas especiais transmitiram ao vivo para o presidente americano e seus assessores toda a ação, do momento da chegada, invasão e morte de Bin Laden, até o momento em que decolaram com o corpo dele. Dos 40 minutos filmados da ação, um só segundo que fosse mostraria a imagem de Osama Bin Laden morto.
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Mas segundo a Casa Branca, a foto teria o efeito de acirrar o ódio dos radicais e seria uma visão chocante para as pessoas do mundo todo. Depois de tudo que o mundo já viu e continua vendo das guerras passadas e da guerra atual, nenhuma outra justificativa poderia ser tão desastrada e tão forçada.
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Porque tendo sido filmada toda a operação, ao verem a foto de Bin Laden morto, jornalistas e o público passariam a exigir a curta sequência dos momentos em que Bin Laden estava para entrar na linha de tiro e de quando foi atingido.
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Alguns jornalistas também iriam querer algumas cenas dos momentos em que os helicópteros militares chegaram e aterrissaram no quintal da casa dele. Apenas para verem como tudo isso, todo esse barulho não despertou a atenção das sentinelas da academia militar próxima da casa de Bin Laden. Helicópteros, tropas de assalto, tudo isso durante 40 minutos e toda uma academia militar dormia como se nada acontecesse. É mesmo intrigante.
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Com a narrativa já pública de que uma das mulheres de Bin Laden teria entrado em sua frente tentando protegê-lo, fica mais do que claro que ele poderia ter sido capturado vivo e levado para julgamento. As revelações que ele poderia fazer sobre seus contatos no Ocidente, bancos que movimentaram seu dinheiro para uso de seus agentes, compras de material bélico com mercadores de armas, movimentações de serviços secretos, tudo isso poderia trazer verdades atordoantes.
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E com todas as possibilidades de tantas revelações, o mesmo soldado supertreinado que o colocou na linha de tiro do seu fuzil, não hesitou em matá-lo.
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Osama Bin Laden, a testemunha mais arrasadora de tudo o que aconteceu desde 11 de setembro de 2001 morreu assim. As tropas especiais que são treinadas para tomarem de assalto o esconderijo de um terrorista e levá-lo preso para interrogatório e julgamento desta vez fizeram outra coisa. Junto com o corpo de Bin Laden, jogaram no fundo do mar todas as verdades que ele conhecia.

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É só examinar a ação como um conjunto de decisões do alto comando militar e político americano e as conclusões e opiniões marcam o que foi decidido com uma cor de suspeita, numa ação que se nota claramente que foi mais uma queima de arquivo do que uma tentativa de prisão.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

P68 O homem das cavernas vence

Por vezes republicações de textos anteriores se adequam a acontecimentos atuais. Em recente ação no Paquistão, tropas especiais dos EUA conseguiram enfim alcançar e executar Osama Bin Laden. Há 10 anos sempre fora do alcance dos seus perseguidores, fica realmente difícil crer que um país como o Paquistão, de maioria islâmica, que tendo atingido a capacidade de fabricação de armas nucleares teve que montar um serviço secreto à altura disto para saber o que se passava dentro e fora de suas fronteiras, tenha sido enganado assim tão facilmente por um terrorista tão conhecido naquela região. Por outro lado, numa vitória tática espetaculosa mas de nenhum ganho real, analisado o acontecimento e seus desdobramentos, a longo prazo em termos estratégicos os americanos saem perdendo. Será para sempre a ação militar que mais comentarão e ao mesmo tempo mais tentarão esconder, tamanha a quantidade de desmentidos, novas versões e ocultamento de fatos. Tivessem eles levado Bin Laden como prisioneiro para um justo e incontestável julgamento nos EUA e até mesmo os islâmicos mais radicais teriam ficado sem argumentos. Mas Bin Laden sabia demais. A aparente vitória americana foi no fundo uma queima de arquivo. Os SEALS, hoje apresentados como super-heróis, já tiveram reveses sérios no Afeganistão, da mesma forma que as tropas especiais SPETNAZ soviéticas quando lá estiveram.
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Os americanos anunciaram ao mundo e a todos os radicais islâmicos que alcançaram e executaram aquele que era considerado pelos núcleos de fanáticos mais radicais o maior exemplo de combatente contra o poder americano. Pior ainda, com as versões dos altos funcionários da Casa Branca em contradição, a liberação para a mídia de vídeos de Bin Laden em que o áudio foi retirado alegando-se razões de segurança e por fim a desastrosa justificativa do governo americano de que a foto de Bin Laden morto traria apenas o ódio desses mesmos fanáticos, como se matar Bin Laden fosse até perdoável por esses radicais e publicar a foto é que os deixaria cheios de ódio. Na história das operações militares poucas vezes surgiu uma justificativa tão desastrada, que mostra apenas que o governo americano, feita a execução, tenta ocultar tudo o que for possível. E de resto confiar no gradativo esquecimento do caso. Enquanto isso todos cantam o hino nacional e depois olham em volta, com medo de tudo.
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Agora é tarde, mas tivessem realmente os americanos sequestrado e levado Bin Laden para ser julgado nos EUA como os israelenses fizeram com o carrasco nazista Adolph Eichmann em 1962, sequestrado na Argentina, levado para Israel e julgado e enforcado, o mundo poderia ter sabido de viva voz por Bin Laden, quem lhe teria sido útil ao perpetrar seus atentados facilitando suas transferências de dinheiro mundo afora, suas compras de material bélico de mercadores de armas e contando ainda com a omissão ou discreta ajuda de governos e serviços secretos em suas movimentações. Aí sim os americanos teriam tido uma vitória tática e estratégica.
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Hoje muita gente pertencente a esses governos e serviços dorme em paz, com suas carreiras e liberdade asseguradas pelo inestimável serviço que lhes foi prestados pelas tropas especiais americanas, que ao invés de manterem viva a maior testemunha de tudo, simplesmente a mataram e com ela jogaram no fundo do mar todas as verdades que ela conhecia.
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Texto publicado originalmente em 13.12.2010 no Oitavo-Dia
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O homem das cavernas vence
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Há séculos sempre atirando...
O máximo possível pouco falada ao mesmo tempo em que suas vítimas são lembradas no mínimo de linhas dos jornais, segue a intervenção militar no Afeganistão, país declarado culpado pelos americanos pelos atentados de 11 de setembro de 2001. Causa um certo desconforto nos EUA e na Europa a guerra para a "construção de um estado democrático" no desconhecido país que aos cidadãos americanos pouco interessa e aos cidadãos europeus menos ainda. Mas nesses tempos em que vemos as primeiras guerras minerais, por assim dizer, disfarçadas com o apelido de "construção da democracia", um barril de petróleo, um metro cúbico de gás e um quilo de urânio valem seu preço em vidas, pelo menos no pensamento dos estrategistas americanos e europeus, coisa que passa despercebida para os milhões de habitantes que desfrutam do confortável nível de vida dos países ocidentais.
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Já com suas reservas próprias à beira do esgotamento e vendo a Rússia com jazidas minerais em que nada nada falta e pior ainda se reerguendo sob as diretrizes ainda presentes de Vladimir Putin, como num espectro da antiga União Soviética, os estrategistas ocidentais tiveram motivos de sobra para ao mesmo tempo em que colocaram bases militares no Afeganistão e Iraque cercando o Irã, fazerem frente a qualquer movimento russo no Oriente Médio, já tendo assim terminado a segunda etapa do plano levado a cabo em 1991, quando deram sinal verde para o Iraque invadir o Kwait para depois terem o pretexto para a chegada em larga escala de suas tropas no Oriente Médio, coroando com êxito o plano que começou com Henry Kissinger colocando tropas americanas em exercícios militares com tropas egípcias na distante década de 1980. Tudo em nome da "boa vontade entre os povos" e contra as pretensões do urso soviético, que depois de um período lambendo as feridas volta como urso russo, mas urso do mesmo jeito.
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Sofisticado e bem educado, equipado com as melhores armas e sustentado por uma rede de satélites que o informam de tudo, assistido com sistemas de transporte por carros blindados e helicópteros e apoio aéreo de aviões de combate, com o corpo protegido por uniformes especiais, o soldado ocidental civilizado está muito à frente dos seus oponentes. Ainda assim não consegue entender porque homens calçados com sapatos comuns ou chinelos de couro, usando uma túnica de beduíno, carregando apenas fuzis AK-47 e antiquados foguetes russos RPG-7, sem transporte e andando quilômetros a fio sob o sol do deserto durante dias e dias ou a noite em temperaturas próximas de zero, ainda está sempre em seus calcanhares, inflingindo danos consideráveis aos que se julgam civilizados.
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Um exemplo disso foi o confronto de uma unidade de 4 soldados de uma divisão de elite americana SEAL em um missão de busca, que cercada por um grupo de guerrilheiros talebans lutou a noite toda com eles matando, segundo seu relato, uns 40, sendo que no final três americanos estavam mortos, o sobrevivente já bem ferido ainda conseguiu se esgueirar por uns 10 quilômetros até chegar o socorro, um helicóptero Chinook com 16 soldados prontos para o combate. Não precisaram esperar muito. Sabendo que o resgate chegaria, os talebans estavam esperando com um foguete RPG-7 que derrubou o helicóptero matando todos os ocupantes. Veículos blindados resgataram o soldado ferido. O custo do lado ocidental foi de 19 soldados mortos, um helicóptero de 20 milhões de dólares derrubado, fora o tratamento para o sobrevivente. Para o lado afegão, alguns fuzis AK-47 perdidos, um foguete RPG-7 muito bem aproveitado, magros auxílios pagos para as famílias dos mortos, fervorosos adeptos da morte em combate, tudo por aproximadamente uns 10 mil dólares e claramente uma vitória contra os ditos civilizados.
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Não custa relembrar que os afegãos receberam generoso financiamento, treinamento e equipamento dos serviços de informação militares americanos quando combatiam contra os russos. A tal ponto aquela guerra se tornou insuportável para eles que os russos viram que apesar de ocuparem todo o território afegão, nunca estavam a salvo das devastadoras investidas por parte dos guerrilheiros afegãos. Foram embora em 1989, depois de 10 anos de perdas e hoje veem pelos noticiários o mesmo acontecendo com as tropas do Ocidente. Claro, os afegãos tem um bom dinheiro para irem às compras de equipamento russo. Fundos dos tempos em que os militares americanos batiam em seus ombros e os chamavam de "amigos" e dinheiro até mesmo da extinta companhia de energia Enrom que pagou vultosas somas aos talebans para que suas pesquisas de jazidas minerais ficassem intocadas foram zelosamente guardados pelos talebans, que mesmo com seu atraso de pensamento, são austeros e ascéticos, enquanto que os ocidentais preferem contar com líderes medrosos e de moral duvidosa, como no atual comando do Afeganistão.
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Alguns analistas ocidentais previam tais tipos de guerras em seus estudos de meados de 1960, quando verificavam que o esgotamento das jazidas de petróleo e minerais estratégicos iria criar sérios obstáculos aos países ricos para manterem sua atividade industrial e o elevado padrão de vida de suas populações, ainda por cima tendo de fazer frente contra a temível União Soviética da época. Hoje com todos os minérios de que precisa para qualquer eventualidade em seu território ou fora dele, refeita depois da queda do império soviético e em franco rearmamento, a Rússia, seguindo as diretrizes de Vladimir Putin não é propriamente o tipo de que os ocidentais possam dar tapinhas nos ombros e chamar de "amiga" como fizeram com os afegãos, que de resto já sabiam que alí não existia amizade nenhuma. Os russos não são ingênuos e nem os afegãos o foram na época. Apenas precisavam do dinheiro, do equipamento e do treinamento que hoje os auxilia na guerra contra quem um dia se disse "amigo". Seria bem melhor se os ditos civilizados tratassem de repensar no âmbito político e militar a forma como se portam no mundo atual. Por mais bem abastecidos que sejam seu arsenal e seus soldados eles dependem de quintais alheios e a continuar esse modo de coexistência nada pacífica, vão terminar sem munição e pior ainda, na terra do homem das cavernas.

domingo, 24 de abril de 2011

P67 Egípcios não jogam futebol

Vendo os noticiários sobre a piora da situação na Síria e me lembrando de um texto que publiquei no bilogue "Oitavo-Dia", onde colaborei até seu término recente, achei que ele se encaixa na análise de certos acontecimentos atuais no Brasil.
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Enquanto os árabes experimentam revoltas atrás de revoltas com resultados significativos na deposição de regimes apodrecidos e que começaram com a queda do regime egípcio, o povo brasileiro já se mostra anestesiado bem antes do tempo pela esperta trama que foi a do ex-presidente Lula em conseguir a indicação do Brasil para sede da Copa de 2014 e das Olímpiadas de 2016, provocando urros de uma multidão perdida na ignorância dos imensos e inúteis custos que isso vai causar, com significativo proveito na época, da candidatura de Dilma Roussef, que cooptando ontem e hoje aventureiros e mercadores políticos, endossou plenamente esse absurdo sem sentido num país carente até mesmo de saneamento básico. Ao mesmo tempo os acertos secretos de empreiteiras e governo para a construção do inútil trem-bala ao custo de 50 bilhões de reais andam mais depressa do que o próprio trem. Se Lula trabalhou de um lado, sabe-se lá o quanto empresas estrangeiras trabalharam do outro para esse resultado.

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Parecendo aqui adepto de outro partido, sempre deixo claro que é o sistema político brasileiro atual, como um todo, seja lá qual partido represente é que está totalmente apodrecido. Não temos mais esquerda, direita ou líderes políticos autênticos. Temos apenas aproveitadores e corruptos, que às custas do trabalho e sofrimento de um povo mantido na ignorância, constroem enormes fortunas pessoais e deixam como legado apenas os restos de sua miséria política e moral. Deveríamos parar de jogar futebol um pouco que fosse, para nosso próprio bem.
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Caro amigo João
Sim, de fato não sou muito fã desse excesso de textos de futebol e digo isso sem a intenção de desagradar, mas devemos sim prestar atenção a um modo de pensar que deve ser revisto. Os povos latinos tem se notabilizado por essa atitude de um fascínio hipnótico pelo futebol, uma atitude até de bovina admiração por falsos heróis que nada mais fazem do que chutar uma bola de couro dentro de um trançado de barbante. Uma boa habilidade mecânica, um bom condicionamento físico e só. Esses mortais alçados à condição de deuses tem somente isso. Enquanto isso verdadeiros heróis nas mais diversas atividades que mantém uma comunidade unida, que a fazem progredir como coletividade humana, como nação que se destaca no cenário mundial realmente com algo a dizer e fazer no mundo permanecem ignorados, esquecidos. Pelo menos frente a essa multidão que só enxerga uma bola pulando num gramado. Fico em dúvida sobre o que mais atrai a atenção dessas multidões, se a bola ou o gramado.
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E adianta sim exprimir pontos de vista políticos com indignação porque é assim que se agregam os que pensam dessa forma a ponto de influir nos acontecimentos, haja visto os egípcios em seu notável exemplo, que sem nenhum gosto pelo futebol fizeram o que fizeram. O ex-ditador egípcio Hosny Mubarak já deve estar se lamentando ter confiado só na polícia. Se ele pelo menos tivesse pensado em inculcar na mente do seu povo o fanatismo do futebol, sim, estaria a salvo hoje.
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Até mesmo o senso de realizações se dilue no tempo na forma de uma mísera lembrança de glórias que nada mais são do que a repetição incessante de datas de "...quando ganhamos da seleção daquele país...". Que país? "...o mesmo que nos empresta dinheiro e constrói fábricas em nossa terra...". Inverte-se um ditado. Aos "vencedores" as batatas, aos "perdedores" o comando político e econômico de muitas nações. Talvez por isso no meio das torcidas sejam tão abundantes as roupas de palhaço.
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Examinando de um ponto de vista da atividade humana, claro, não só o futebol como os esportes olímpicos são de grande glória, inesquecível mesmo, pelos exemplos que nos mostram, mas de forma alguma devem ser tomados como último e grande apanágio das realizações. Ao que parece aqui no Brasil e vejo também que em Portugal, é assim que o futebol é visto. É um grande erro.
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Como latinos podemos exultar, até mesmo rir de um grupo de americanos que só tem a nos contar como perdem jogo após jogo e podemos mesmo derrotá-los numa partida amigável e ver, que ora essa, são mesmo esforçados mas perderam feio para nós. Terminado o jogo nos despedimos, voltamos para a nossa condição de desempregados, sub-empregados ou futuros emigrantes e ficamos no porto a acenar para o grupo de americanos que embarca no super porta-aviões Carl Vinson. O goleiro é engenheiro nuclear, os zagueiros pilotos dos mais modernos caças de combate, os atacantes que nem sequer ameaçaram o gol controlam a mais moderna sala de armas nucleares. E lá se vão eles, "derrotados", acenando para nós, "vencedores", enquanto amanhã nós tentaremos mais uma vez a fila do consulado americano tentando um visto para emigrar para o país dos "perdedores".
Talvez eu pinte com cores nada agradáveis essa apreciação pelo futebol, mas me parece que de forma um tanto errada, no mínimo condenável, demos atenção demais para isso e geração após geração, pais foram criando uma horda de filhos desmiolados e culturalmente anulados. Vejo isso aqui no Brasil e imagino se não é igual em Portugal. Crianças que voltam da escola e assim que se veem livres do uniforme, se põem na rua a chutar e chutar sem nenhum outro objetivo uma bola velha de couro, numa repetição insana dos seus "heróis". Depois, com um vocabulário mínimo brincam com paus e pedras, sim já regrediram a isso. Em notável contraste, crianças japonesas, coreanas e chinesas também brincam de futebol, mas dão-lhe apenas o valor de um folguedo de momento. Suas brincadeiras favoritas são jogos onde a inteligência é exercitada, os trabalhos como pesquisa nos laboratórios das escolas são valorizados e mesmo desfrutar das belezas da música clássica é coisa que os deixa fascinados. Nós latinos nos acostumamos com berros absurdos em grupo, em sair espancando as pessoas em torcidas organizadas, em viver num torpor alcoólico gritando o nome do time e alguns chamam a isso de paixão. Eu chamo de barbárie.
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O Brasil tem notável marca de incultura e falta de modos, em cenas deploravelmente protagonizadas pelos seus cidadãos, boa parte dessa falta de modos aprendida na histeria coletiva dos estádios. Exatamente por isso, décadas atrás a Argentina se considerava superior aos brasileiros e de fato era mesmo. Hoje o jogador argentino Messi pode vir ao Brasil e ao ser reconhecido num restaurante contar bonitas histórias sobre Maradona na Copa de 1978, quando a Argentina se mostrou uma "potência invencível" até com pretensões hegemônicas sobre a América Latina da época. Mas não vai falar nada da Guerra das Malvinas em 1982, quando a Argentina invadiu as ilhas e a Inglaterra mandou 42 navios de guerra para resolver a situação. As ululantes torcidas argentinas que saíram às ruas gritando como se estivessem dentro de um estádio logo descobriram que seus berros de nada adiantavam contra os aviões Sea Harrier ingleses. Resta saber quantos retratos de Maradona existiam dentro do cruzador argentino General Belgrano, afundado pelo submarino nuclear britânico Conqueror enquanto que o porta-aviões argentino 25 de Mayo ficava ancorado incapaz de enfrentar o poderio nuclear dos ingleses. O porta-aviões terminou desmontado e derretido em estaleiros indianos. Quantos retratos de Maradona existiriam lá dentro? Depois Messi gentilmente pagará a conta com pesos argentinos que foram impressos no Brasil. Sim, este ano o Brasil vai imprimir 50 milhões de cédulas para os argentinos que até isso não sabem mais fazer, mas continuam batendo em bumbos e urrando pelas ruas quando Messi entra em campo. Na vida nacional, um país vendido a multinacionais. Não longe dos estádios, crescem favelas estarrecedoras que não existiam há 40 anos. Que vencedores.
Sobre os russos então podemos falar tanta coisa. Pouco sabem ou pouco ligam para o Dínamo de Moscou. Ligam mesmo é para seu poderio militar, que tendo refeito o mapa do mundo após a 2a. Guerra Mundial, mesmo depois da queda da União Soviética e de um período de fome, voltam a deixar o mundo de respiração presa com Vladimir Putin, que nunca apareceu numa foto dentro de um estádio refazendo suas pretensões de hegemonia na Eurásia. Futebol? Vladimir Putin mal sabe como se chuta uma bola. Sua paixão são tanques e aviões.
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Por fim caro amigo, sem querer ser mal interpretado e muito menos parecer antipático, acho sim que devemos rever certos conceitos de vida, certas idéias de paixão que só tem, na conta final, servido para criar não só multidões, mas nações de desmiolados, incapazes de pensar sobre seu próprio povo, sobre sua própria nação de uma forma diferente que não sejam onze sujeitos chutando uma bola de couro para todos os lados. Alçados à condição de divindades e modelo de vida, são heróis vazios, falsos mesmo. Em Portugal não sei, mas no Brasil, esses falsos deuses, com uma vida pessoal sempre obscura, repleta de histórias policiais, de escândalos e excessos, de envolvimento com bandidos, me parecem tudo, menos heróis. Talvez por isso boa parte do povo brasileiro esteja assim, maltrapilho e ignorante, vestindo-se como um dos seus "heróis", chamado Rei do Roma, que quando não está em público seminú, aparece investigado em fotos onde abraça traficantes. Esse é o modelo de herói? Eu duvido.
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Herói mesmo é um homem como Deng-XiaoPing, que sobrevivendo na China aos expurgos da era de Mao-Tsé-Tung, levou até o fim, quase morrendo por isso, seu plano de uma China moderna e capaz de influir no cenário mundial. Implantando com mão de ferro as diretrizes de educação básica, média e superior e da economia, Deng não viveu o suficiente para ver a China que idealizou e que hoje muda o mapa do mundo. Uma China que ainda tem preservado como museu o clube onde os ingleses colocaram uma placa proibindo a entrada de cães e chineses e foi o mesmo Deng que viu isso que disse a Margareth Tatcher em 1982 que ele preferia ver Hong-Kong arrasada militarmente se não fosse devolvida aos chineses. Ele disse isso para a mesma Margareth Tatcher que naquele ano derrotava a "potência" argentina, mas que vendo o poder nuclear chinês traçou o plano de devolução da ilha para a China. Em 1997, um descendente dos ingleses que haviam comparado os chineses a cachorros arriou a bandeira inglesa do mastro e saiu chorando enquanto a bandeira chinesa subia vitoriosa. Deng-XiaoPing mal sabia que forma tinha uma bola de futebol ou como era jogado esse jogo, coisa de nações menores. E mesmo assim, convenhamos, com tudo o que ele fez pelo seu povo, isso sim foi um gol de placa. Por gente assim, por movimentos coletivos assim, aí sim vale a pena ser fanático. -
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quarta-feira, 13 de abril de 2011

P66 Liberem as armas

Num tiroteio já vivemos mesmo...
Depois de tudo o que aconteceu na escola do Realengo já aparecem bem mais cedo do que deveriam, os repórteres e políticos hipócritas que querem fazer o papel de "amigos da paz"...armada é claro, por guardas que eles pagam para não terem que atirar em alguém em defesa própria. Ou são covardes demais para isso ou não querem entrar num confronto. Nunca se sabe, o bandido pode ser mais rápido ao sacar a arma. Melhor pagar alguém para enfrentar o risco enquanto se recolhem ao doce convívio dos condomínios fechados.
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O caso da escola do Realengo pode ficar para uma observação tardia. Já aconteceu mesmo. É só mais um caso num longo caminho de fuzilamentos coletivos. Alguém lembra do massacre de 21 pessoas em Vigário Geral em 1993? As vítimas estavam desarmadas. Alguém lembra do massacre de 29 pessoas em Nova Iguaçu em 2005? Claro, as vítimas estavam desarmadas, de novo. Na escola do Realengo é lamentável que tenha acontecido mais esse massacre e as jovens vidas que se foram perderam-se numa tragédia inimaginável, mas houvesse guardas armados em cada andar daquela escola, dificilmente o assassino teria chegado até onde chegou.
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Há um exemplo que faz pensar quem tem coragem para isso. Uma nação como Israel, onde todos os cidadãos andam armados até com metralhadoras Uzi de 9 mm. ou fuzis M-16 enfrenta radicais islâmicos que entram em seu território e se explodem no meio da população. Dá para entender. Mas mesmo dessa nação armada até os dentes e que ensina em cursos de treinamento militar para suas crianças o que são armas, como funcionam e como usá-las em defesa própria nos vem uma lição. Seus alunos não espancam e nem atiram em seus professores e seus colegas de escola não entram atirando na escola para se vingarem das brigas com os colegas de classe. Como se explica isso?
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Desde 1994, sob as benção do governo da época e da alegria dos parlamentares de Brasília, muitos acusados de manterem trabalho escravo em suas fazendas no país, o cidadão de bem foi desarmado em campanhas ano após ano e o que temos visto desde então é a total supremacia dos bandidos e organizações criminosas dos mais variados tipos, desde o PCC paulista e sua insurreição de 2006 que deixou o Estado de São Paulo de joelhos até o tranquilo domínio das milícias no Rio de Janeiro que dominam pelo terror das armas que possuem, milhares e milhares de cidadãos das comunidades que escolhem para tomar de assalto. E quem tem armas para se defender? Ninguém. O governo editou leis para desarmar o cidadão para "defendê-lo". Resta saber a quem ele quis defender. O cidadão é que não foi.
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O certo é que mais que grupos de hipócritas, as redações do jornais abrigam jornalistas praticamente vendidos a uma campanha de desarmamento, que escrevem generosas páginas e mais páginas de estatísticas para justificar o desarmamento e publicam apenas pequenas notas de pessoas favoráveis ao direito do cidadão de armar-se para sua defesa ou nem mesmo isso. Há poucos anos atrás os jornalistas diziam que o Brasil tinha 5 milhões de armas ilegais. E como ficaram sabendo disso? Saíram perguntando em todas as casas quem tinha armas ilegais? E receberam 5 milhões de alegres respostas afirmativas? Agora depois do tiroteio na escola do Realengo, os mesmos jornalistas exultantes dizem que o número de armas ilegais aumentou para 16 milhões.
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Então temos que admitir que o número de bandidos ultrapassa as próprias Forças Armadas em 15 milhões e 700 mil bandidos armados, já que os jornalistas carimbam todas essas armas como em posse de bandidos. Ou então resta um explicação mais lógica. Eles simplesmente mentem como bem interessa no momento ou o cidadão decidiu, mesmo que às custas de enfrentar essas leis de desarmamento, armar-se para defender a si mesmo e sua família.
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O mais correto é liberar as armas para o armamento amplo, geral e irrestrito do cidadão. Tiroteio vai ter e dos grandes, mas já vivemos num tiroteio mesmo, grande diferença não vai fazer.
O certo é que num clima como o do Velho Oeste, onde os cidadãos decentes podiam se armar, se defender e até mesmo organizarem as patrulhas que caçavam bandidos, as chamadas "posses", as coisas correram de forma diferente. Os cidadãos de bem venceram e puderam viver e trabalhar em paz. A nação progrediu pelas suas leis e pela firmeza das penas aplicadas aos bandidos.
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Já no Brasil do cidadão desarmado e exposto aos bandidos super armados, dá para ver como as coisas caminham mal e dependendo desses jornalistas vendidos e desses políticos corruptos, vão caminhar pior ainda.

segunda-feira, 21 de março de 2011

P65 Simplesmente heróis

Uma linhagem de samurais...
Na foto acima vemos um grupo de pilotos kamikazes em 1945. Era comum antes de partirem para as missões de combate contra as forças navais americanas que tirassem fotos, mandadas depois como lembrança para suas famílias. Desses nenhum sobreviveu. Apresentando-se como voluntários frente ao avanço da frota americana no mar do Japão, com sua marinha destruída e sua força aérea reduzida a poucas centenas de aviões e até mesmo com munição racionada, eles aceitaram como última linha de defesa o plano de jogarem seus aviões contra os navios americanos com as bombas sob os aviões armadas e prontas para explodirem.
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O porta aviões americano Yorktown afundou na batalha aeronaval de Midway atingido por um ataque suicida do avião pilotado pelo Tenente Joichi Tomonaga. Já tendo participado do ataque à ilha de Midway, seu avião voltara avariado e ficara só com um tanque em condições de uso. Não teria como voltar da missão de ataque ao porta aviões. Ele decolou para sua última missão sabendo que não retornaria. Com a aproximação da frota americana, quando os kamikazes começaram seus ataques, 81 navios americanos foram atingidos. O resultado era sempre o mesmo, avarias graves ou afundamento.
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Na foto abaixo vemos o momento próximo do impacto de um avião kamikaze japonês contra o cruzador americano Missouri, enquanto a guarnição de artilheiros tenta atingi-lo com suas metralhadoras antiaéreas. Mesmo enfrentando o impacto das balas ele avançou até o fim. Não existem relatos de kamikazes que tenham desertado de sua missão. Sobreviventes existiram pelo fato de terem seus aviões avariados pelo fogo anti-aéreo caindo no mar ou então porque antes de sua partida a guerra terminou. Mas nenhum deles desonrou sua palavra de dar a vida para defender o Japão.
É exatamente essa linha de heróis que ressurge num momento trágico para o povo japonês depois do desastre natural que o atingiu e que provocou a reação nuclear descontrolada dos reatores da usina nuclear de Fukushima. Os bombeiros, pilotos de helicópteros e técnicos da usina que tentam diminuir o vazamento de radiação, todos voluntários, lutam para defender sua nação e seus cidadãos de uma situação ainda pior, o completo derretimento dos reatores e a dispersão de uma radioatividade dezenas de vezes mais forte e letal na atmosfera.
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Mas sabem de uma coisa. Que seus trajes de proteção, para uso em condições normais de trabalho são apenas uma proteção mínima, já que foram projetados apenas para tarefas de inspeção de partes dos reatores com radiação alta, mas sob controle quando a operação é em máxima força mas controlada por compartimentos que isolam a radiação e que ainda assim passa para o exterior. Hoje todo esse sistema de proteção está destruído e eles estão expostos de tal forma que por vezes tem que se afastarem antes que percam os sentidos.
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Sabem portanto que estão entregando suas vidas a uma morte precoce e dolorosa e o que é pior, lenta. Mas se entregam a esse sacrifício pelo amor ao seu país, para salvarem quantas pessoas puderem, enquanto as equipes de resgate na área também são aos poucos contaminadas, mas continuam sua tarefa de busca de sobreviventes e corpos e ao mesmo tempo coordenam a distribuição de víveres aos desabrigados. O código de honra e coragem dos antigos samurais não poderia ter seguidores mais corajosos do que estes.
O último grande ato de sacrifício no melhor estilo samurai foi o do escritor Yukio Mishima, que na adolescência acompanhou a guerra e suas consequências sobre o Japão, viu o reviver de sua nação e tornando-se um polêmico escritor, criou uma organização paramilitar com a missão de defender e reavivar comportamentos tradicionais de honra e decência que ele dizia estarem desaparecendo no Japão da década de 70, que para ele, se experimentava um progresso admirável, também trazia do Ocidente valores condenáveis como o indvidualismo exacerbado, a falta de lealdade e o hábito de viver em desonra, coisa não muito incomum na atitude de grandes corporações que viam apenas o lucro como valor máximo, comportamento que já havia também contaminado a política da época. Invadindo um quartel para exprimir frente aos soldados e à imprensa seu inconformismo com um manifesto apelando para o retorno aos valores de honra, percebeu que fora ignorado. Vendo que havia fracassado em sua missão, retirou-se para a sala do comando e ignorando os apelos dos comandantes que havia aprisionado, praticou o suicídio ritual dos samurais. Preferiu partir para a memória histórica do seu povo com honra do que viver perdido num labirinto de desculpas.
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Hoje vemos semelhantes atos de heroísmo, coragem e sacrifício por parte desse grupo de bombeiros, pilotos e funcionários, que na tentativa de resfriarem os reatores e de religarem a força das instalações semi-destruídas que reparam como podem numa corrida talvez inglória contra os fatos, não desistem de sua missão. Mesmo nos helicópteros, despejando toneladas de água sobre o material radioativo já quase em fusão, os pilotos são obrigados a se afastarem tamanha a dose de radiação que recebem. Da mesma forma os bombeiros que se aproximam dos reatores com os canhões de água sofrem as mesmas consequências. Enquanto isso, técnicos da usina, com seus trajes que dão uma proteção apenas precária contra a radiação se aproximam o máximo possível das instalações, tentando religar equipamentos de resfriamento para diminuírem a emissão radioativa e assim conseguirem tornar possível que o completo isolamento da radiação seja feito.
Hoje não é um combate contra um exército inimigo. A marinha americana que há dezenas de anos se preparava para invadir o Japão, hoje manda com seus navios, suprimentos, remédios e todo tipo de equipamento para ajudar na missão desses heróis.
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Com seus trajes já reconhecidos pelos espectadores do mundo todo, sensibilizados pela situação que se desenrola no Japão, os trabalhadores da usina travam uma guerra contra um inimigo temível. Existe uma grande possibilidade de que percam essa batalha e outros tenham que assumir seus lugares. Talvez mesmo essa guerra seja perdida, mas mesmo assim não desistem.
Já sabendo-se condenados pelas enormes quantidades de radiação que recebem nesse combate diário, continuam com toda sua coragem trabalhando na área da usina, agora um campo de batalha, mostrando não só ao seu povo, mas também aos cidadãos do mundo que existem ainda heróis anônimos, capazes dos mais altos sacrifícios em defesa do seu povo e dos valores mais altos de coragem, lealdade e honra.
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emos aqui no Brasil uma profunda ligação e laços de sentimento e irmandade com o povo japonês, cuja colônia é descendente das levas de milhares de imigrantes que vieram para cá tentando uma vida melhor. Com seu trabalho duro e com sua notável disciplina oriental, ajudaram a moldar e formar um tipo de cultura no Brasil que é de grande valor. Mesmo sensibilizados como qualquer povo do mundo pelo que lá acontece, sentimos com mais intensidade do que os outros estrangeiros o que ainda sucede naquela terra.

Não podemos escolher quando será a nossa morte, mas se um dia estivermos em situação semelhante, deveremos numa prece silenciosa pedir a mesma coragem para um ato de tamanho heroísmo.
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Agora, em prece igualmente silenciosa mas carregada da mais profunda emoção, devemos todos nós elevar nossos pensamentos e uma oração a esses heróis, que com sua coragem e entrega, tornam possível a todos nós que ainda acreditemos no ser humano e em sua capacidade de dar a vida pelo seu país e pelo seu povo, com seus corações repletos dos melhores sentimentos de altruísmo e abnegação.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

P64 Não gosto de matar ratos

Os ratos, na verdade, são inocentes...
Ao voltar para casa ontem encontrei morto, afogado na ratoeira, um pequeno ratinho. Lamentei pelo jeito que o animal morreu. A água da chuva havia subido perto do bueiro onde eu coloquei a ratoeira e o pobre animal morreu afogado alí. Os amigos leitores haverão de estranhar. Mas porquê lamentar? Ora, fazendo as contas, imagino que a morte do bichinho foi penosa, carregada de agonia, a água subindo e ele preso na ratoeira, tentando escapar e morrendo aos poucos. Contando os outros dois que havia capturado na mesma ratoeira, são três. Entrada de bueiro perto de casa é assim mesmo. Os dois que peguei antes, com calma levei para um descampado aqui perto e soltei na noite. Leis da natureza. No descampado ou são pegos por uma coruja ou outro predador, mas ao menos tem uma chance na luta pela vida. Até mesmo um rato merece isso. A alternativa é matar o bicho ao abrir a portinha da ratoeira com um pisão ou uma porretada, coisa nada agradável de fazer.
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Ao mesmo tempo em que pegava o ratinho morto e o punha no saco de lixo, pensava que afinal, mesmo sendo considerado um animal imundo, ele não tinha culpa de ser assim. Os ratos, seja como for, assim foram feitos pela Natureza e nada mais fazem do que o mesmo que nós, apenas tentam viver. Eles nem fazem idéia do mal que nos causam, apenas chegam e roem o que tem que roer, passam as doenças que tem que passar e são absolutamente inconscientes disso. Apenas vivem, sempre assustados e escondidos em bueiros, sempre no limite da fome e caçados pelos animais maiores. Eles não tem culpa de serem como são. Nenhuma culpa de viverem escondidos, de serem perigosos, de serem sujos.
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Depois de deixar o corpo dele na lata de lixo, entrei em casa e liguei o televisor. Como não poderia deixar de ser, apareceu a notícia de mais um caso de corrupção onde como já é tradicional, políticos estão envolvidos. Um deputado estadual por São Paulo dizia que não tem nada de errado em pagar o aluguel de parentes com verbas estaduais. Enquanto isso no hospital da cidade dele, um pai desesperado depois de três dias sem atendimento médico para o filho com o braço quebrado recorria à polícia para tentar conseguir socorro. Nem falo dos pacientes que morreram ou agonizam sem remédios. Enquanto o hospital está abandonado sem verbas, os parentes de um político corrupto recebem verbas estaduais para pagarem o aluguel. Quem é um dos responsáveis por isso? Um político corrupto. No Piauí uma reportagem mostra que 74 ambulâncias que deveriam estar trabalhando para atendimento de UTI móvel estão abandonadas num pátio, estragando-se dia a dia. Quem provoca desastres assim? Políticos corruptos.
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Mais uma notícia mostra que o corte de 1 bilhão de reais das despesas do governo vai atingir diretamente a educação. A presidente eleita Dilma Roussef já começa a articular votos para o aumento da idade mínima da aposentadoria. Quem vota a favor disso? Políticos corruptos, que ao mesmo tempo desfrutam de aposentadoria privilegiada. Surge também uma notícia de que governadores estão se articulando com deputados federais para tentarem a volta da CPMF com outro nome, alegando aumento de despesas na saúde. Claro, é só para roubar mesmo. Em todos os anos de CPMF isso nunca ajudou em nada. Além disso quem vai pagar a conta de mais 8.000 vereadores que foram eleitos na última eleição por causa de uma emenda constitucional? E quem é o culpado por tudo isso? O político corrupto.

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Aborrecido e ao mesmo tempo lembrando do ratinho morto, comecei a fazer algumas comparações entre a ação dos ratos e dos políticos. Percebi que os ratos além de não terem culpa de serem como são, provocam danos bem menores e são bem menos perigosos do que os políticos, que além de terem culpa de serem como são, provocam danos irreparáveis e milhares de mortes de cidadãos todos os anos.
Fui me lembrando de todas as reportagens sobre a destruição da nossa educação e de quem é a culpa disso tudo. Abandono de escolas construídas por seus antecessores, obras de escolas abandonadas enquanto vereadores e prefeitos se concedem aumentos obscenos, merenda escolar roubada ou dada a animais em fazendas, materiais superfaturados do orçamento federal para escolas que não foram construídas e de quem é a culpa? Dos políticos. Que graças a uma estrutura de poder corrupta administram nosso país e roubam o que podem para eles. Cultura, educação, ciência, isso não tem nenhum valor para eles, interessa apenas o que podem roubar para viverem bem às custas do dinheiro dos impostos, deixando pais, mães e seus filhos desesperados na porta das escolas que ficam sem vagas, sem professores, sem material escolar, sem segurança. Enquanto isso políticos vivem em mansões com esse dinheiro roubado, dão a melhor educação a seus filhos e já é habitual que enfiem seus parentes na administração pública para roubarem mais.
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Os ratos podem atacar uma escola, podem roer um ou outro caderno ou algum material escolar, mas é só isso que fazem. São sujos, vivem escondidos à espreita do que vão atacar e só trazem doenças. Mas não tem culpa do que fazem. Eles não tem consciência de serem assim. No fundo são inocentes.
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Já os políticos sabem que são assim. Que são sujos, que vivem à espreita do que poderão roubar, que são uma doença da nossa sociedade e é assim que gostam de viver e é assim que viverão até serem mortos da mesma forma que as pessoas acham que os ratos devem ser.
Me lembrei dos casos onde pacientes morreram à mingua em hospitais públicos, dos 26 bebês que morreram numa maternidade do Amapá por falta de material hospitalar adequado, dos doentes de tuberculose da favela da Rocinha que não recebem mais os remédios, dos pacientes de São Paulo que levam até 6 meses para receberem quimioterapia contra o câncer, da epidemia de dengue com milhares de doentes pelo Brasil afora, tudo sempre por causa da falta de verbas, que faltam para o socorro dos pacientes mas que não faltam para serem roubadas pelos políticos que administram o sistema de saúde e as verbas que vão para eles e seus cúmplices nomeados para a administração.
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Um rato pode entrar em um hospital e roer alguns lençóis e alguns fichários médicos, mas fará muito menos mal do que os políticos que de forma premeditada roubam verbas, desviam recursos, superfaturam preços de remédios sabendo que estão causando dor e morte para milhares de pacientes que hoje gritam na porta dos hospitais públicos. Os ratos de verdade mesmo pelo menos não tem consciência do mal que causam. Os políticos sabem que fazem esse mal, mas isso é lucrativo para eles. Sabem que estão causando dor e sofrimento e não se importam nem um pouco com isso e vão continuar a fazer isso até que sejam mortos como ratos. Os ratos de verdade mesmo pelo menos não tem consciência do mal que causam. Os políticos sabem que causam todo esse mal, mas isso é traz lucros para eles e assim vai ser enquanto estiverem no poder.
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Pensando em tudo isso me lembrei do corpo do ratinho na ratoeira e imaginei seu desespero, as águas subindo, ele se afogando. Em sua pequena consciência em agonia deve ter pensado que mal teria feito para que algum malvado o matasse assim. Nenhum, ele era inocente, apenas vivia como a Natureza o fez.
Me lembrei também do prédio que é chamado de congresso nacional onde onde uma verdadeira cria de seres humanos que abdicaram de sua humanidade para se tornarem animais do mesmo tipo hoje se alimentam da vitalidade, do trabalho e acima de tudo do sofrimento do povo brasileiro.
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Enquanto os ratos vivem escondidos em bueiros imundos, os políticos vivem em gabinetes iluminados para planejarem seus ataques ao cidadão que paga impostos. Enquanto os ratos vivem no limite do medo e sempre fugindo, os políticos vivem cometendo seus crimes e dispõem de imunidades para não serem alcançados pela Justiça. Enquanto os ratos são pisados e mortos, os políticos vivem pisando no povo brasileiro e no Brasil inteiro e causando só desgraças no dia a dia de um povo sofrido.
Foi assim que descobri que não gosto de matar ratos. Mas políticos eu mataria sem problemas de consciência. No Brasil de hoje, isso já se tornou até uma precaução de higine e segurança pública.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

P63 Tristes trópicos

Já dizia Levi-Strauss...Tristes Trópicos...
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Hoje me lembrei do livro que o francês Claude Levi-Strauss publicou em 1955 descrevendo sua viagem ao Brasil em 1935, onde faz um relato das sociedades indígenas e da sociedade brasileira que ele conheceu na viagem. O livro com o título de "Tristes Trópicos" é um relato de suas impressões. Fiquei pensando que tipo de livro ele escreveria se voltasse ao Brasil hoje e passeasse pelas ruas como qualquer um. Sabendo antes de chegar ao Brasil que 76 anos teriam se passado ele pensaria num título talvez como "Trópicos Modernos". Porém ao andar logo nos primeiros quarteirões é provável que ele desanimasse de vez do novo nome. A par da evolução tecnológica das coisas, Levi-Strauss veria abismado a inacreditável involução do povo brasileiro, que ele encontraria decadente em seus costumes e falta de modos em geral. O tempo passou, as máquinas progrediram, o brasileiro regrediu. E regrediu absurdamente.
Uma das primeiras coisas que deixaria o francês atônito seria a inacreditável quantidade de botecos que ele encontraria e o tipo comum de brasileiro enfiado dentro deles, barrigudo, vestido com um bermudão e um chinelão, copo de cerveja ou cachaça na mão e olhando uma moderna televisão sempre sintonizada num canal de futebol. Existem os que assistem os esportes na televisão, num lazer aprumado, com uma bebida contida. Mas no geral, pinguço por acaso consegue pensar em outra coisa?
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É claro que existe ainda uma parte que rejeita essas coisas e que se veste corretamente, uns sempre arrumados, mesmo humildes e trabalhando duramente com sua calça jeans, camiseta e tênis, limpos e bem descontraídos e outros mais formais compondo um cenário que ainda dá esperanças de que não estejamos na borda da completa regressão social e moral. Outros bem mais à vontade, usam bermudas impecáveis com tênis, meias e camisetas limpos, compondo um traje de verão ou de lazer. Mas já começam a perder para a verdadeira horda de bárbaros que vemos nas ruas, mercados e farmácias. Esses mais aprumados já começam a aparecer não como brasileiros, mas como colonos de uma metrópole, rodeados de aborígenes incultos que veem civilização só nos emblemas de latas de cerveja ou garrafas de cachaça. E olham postes e esquinas da mesma forma que um cachorro ao sentir necessidade de se aliviar. Banheiro? Sanitários? Isso é coisa de civilizados. Não se dão a esse trabalho.
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Deixando de olhar as cenas do boteco, não raramente ele encontraria assim pessoas urinando na rua. Não é difícil de encontrar esses tipos por aí. Em Salvador, na Bahia, já virou parte da paisagem. No Rio de Janeiro a polícia é obrigada a sair pelas ruas multando as pessoas que flagra urinando nas ruas. A FIFA mandou. Quer tudo bonito para a Copa do Mundo. Mais uma surprêsa para Levi-Strauss. Um orgão que cuida de esporte amador manda até no exército dito do Brasil. Adivinha quem mandou todos subirem o morro do Alemão de farda e fuzil na mão?
Levi-Strauss acostumado com as ruas de Paris com gente bem arrumada e decentemente trajada ficaria horrorizado de ver homens feitos, numa boa situação econômica e social andando às pencas na rua só de chinelão e bermuda. O que antes ele teria atribuído à pobreza veria que sim, realmente é um caso de pobreza, mas no caso pobreza de espírito e falta de modos, falta de educação da grossa que eles mesmos tratam de ensinar para seus filhos. O que mais pode levar os brasileiros a andarem assim, maltrapilhos, com a borda da cueca aparecendo no bermudão sem cinto e entrando no supermecado, alguns tratando de levantar o bermudão já caindo e deixando o traseiro exposto? Ao lado deles, suas mulheres, seus filhos e filhas achando isso a coisa mais natural do mundo. É o que os filhos aprendem. Se o pai, modelo de herói para os filhos anda assim pelas ruas e pega inúmeras latas de cerveja nas prateleiras e já sai bebendo na rua, entra no carro e sai dirigindo bebendo, o que mais os filhos podem pensar? Ser desmazelado, maltrapilho e pinguço é o modo certo de sair na rua.
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Talvez parando perto de uma banca para ler as notícias do Brasil moderno e tentar se recompor, Levi-Strauss veria igualmente horrorizado que a última moda agora é o dinheiro da corrupção sendo enfiado nas roupas íntimas. E poderia ver casos e mais casos de corrupção em que os corruptos foram flagrados fazendo exatamente isso, enfiando o dinheiro na cueca.
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Vendo todas essas cenas, em que as roupas íntimas são usadas como roupas de passeio, em que pais e mães dão aos filhos tristes exemplos de falta de cultura, falta de modos e falta de higiene, Levi-Strauss se lembraria das tribos que viu em contato com os brancos aqui no Brasil, que aos poucos foram se aculturando e procurando absorver da sociedade do homem branco o que viam de melhor. Se lembraria de índios que deixaram de usar tangas para começarem a usar calças, camisas e sapatos, se trajando decentemente. Ao mesmo tempo em que veria isso, ele constataria que com modernas máquinas de costura industrial capazes de fabricarem centenas de peças de roupa por hora, os brasileiros estariam, ao lado delas deixando de usarem roupas para regredirem ao estado de nudez dos índios não por uma opção pensada mas sim por absoluto desmazelo. E com as mais modernas instalações sanitárias hoje disponíveis em qualquer casa, ainda por cima estariam os brasileiros já acostumados a fazerem necessidades nas ruas porque acham divertido. Levi-Strauss se perguntaria se esse seria mesmo o Brasil moderno. Não teria errado de país em sua viagem?
Aprumados e bem compostos na paisagem estariam os cachorros que ele veria pelas ruas, que ao menos em sua natureza animal estariam mais educados e mais apresentáveis do que seus donos que se acreditam superiores a eles. Alguns desses bem postos animais as pessoas chutam na confusão de uma situação em que se confrontam com pontapés e mordidas, infelizmente momentâneamente cegos pelo ânimos esquentados de situações insólitas.
Assim Levi-Strauss encerraria sua melancólica viagem de retorno ao país que conheceu há tanto tempo. Ao retornar para seu recanto, quando lhe perguntassem como tinha sido a viagem, talvez por zelo piedoso pelos brasileiros ele diria que foi apenas um passeio em que viu coisas interessantes a relatar em seu novo livro.
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O nome do novo livro? "Tristes Trópicos Ainda".