quarta-feira, 1 de setembro de 2010

P46 E agora, a sobremesa...

O morango é amargo, mas a festa continua... Com o natural esquecimento do caso do atropelamento e morte do filho da atriz Cissa Guimarães, atriz da Rede Globo, retorna a classe média e média alta também para as alegres noitadas, onde sabem que façam o que fizerem seus filhinhos, nada vai acontecer, a não ser a impunidade. No máximo em caso de condenação, talvez alguns meses de serviço comunitário ou pagamento de cestas básicas. Já o coitado que tiver sido atropelado ou a coitada que tiver sido violentada, que azar, dirão os vizinhos do condomínio.

A orgia da classe média é essa e existe entre todos um tácito e silencioso acôrdo de que as coisas são assim mesmo. Aliás, seus filhos estudam Direito para isso, para estarem mais cientes do que fazer no caso de acontecer o inesperado meio esperado. Se bem que as possíveis vítimas também sabem disso, também aceitam o acôrdo quando saem fazendo loucuras pelas ruas e bares e se por azar terminarem o dia ou a noite sendo as premiadas do dia ou da noite para serem servidas em forma de bolo, fazer o quê?
Resta às lacrimosas mães cariocas, que já podem fazer companhia às mães da Plaza de Maio na Argentina, mães das vítimas da Junta Militar argentina que sumiu com milhares de pessoas, apelarem para o setor de passeatas do Instituto Sou da Paz. Por uma módica quantia, o movimento, aquele da pombinha da paz, põe um batalhão de gente de camiseta branca nas ruas, com o símbolo da pombinha. Um pombinha, diga-se de passagem, bem mais consciente do que os moradores do Rio de Janeiro, que vendo do alto tanta bala perdida voando para todos os lados, decidiu pousar em algum outro lugar bem mais seguro, ficando somente na camiseta dos passeantes, que volta e meia deitam na fumaça de mais uma bala não tão perdida assim.

Nem tudo estará perdido, porém, se as mães cariocas encontrarem os membros do Sou da Paz trancados dentro de casa e enfiados embaixo da mesa no meio do tiroteio. Podem apelar para o Movimento Viva Rio, outro que vive de denunciar a violência, dando a todos a sensação de que ele chegou no Rio de Janeiro ontem, já que desde a década de 90, tiroteios e fuzilamentos coletivos são rotina na cidade onde pretendem denunciar o que pensam que ninguém sabe. Mais uma vez, por uma módica quantia, organiza-se um desfile de cruzes que são solenemente enterradas na praia, simbolizando o massacre que é perpetrado contra a população. Ou pelos bandidos, que pelo menos estão em seu dia de trabalho ou pelos filhinhos da classe média, que estão voltando de mais uma noite de bebedeiras em altíssima velocidade e atropelando quem encontram pela frente. Terminado o protesto, enquanto os garis retiram as cruzes, vão todos se deitar na praia ou bebericar num bar da moda, que afinal ninguém é de ferro. Só os fuzis que atiram para todos os lados.
E assim continua a vida na cidade maravilhosa, que já tem um refrão entre os traficantes armados que policiam as encostas dos morros :

"Cidade maravilhosa, cheia de tiros mil...
Cidade maravilhosa, munição do meu fuzil..."

Munição paga é claro, com o dinheiro dos deslumbrados filhos da classe média e média alta, que abastecendo as bocas de fumo com reais, dólares e euros ajudam a manter esse tenebroso cenário.

Quanto a essas classes, deve-se notar que classe média é aquela que pensa que é rica, mas está com o cheque especial no vermelho. Classe média alta é aquela que também pensa que é rica, mas apenas ainda não estourou o saldo no banco. E a festa continua. Mas para dar um sono tranquilo ou quase aos pais desses filhos tão estabanados, está aí a polícia da cidade maravilhosa, sempre vigilante no lucro que pode ter com tudo isso, já que a orgia vai longe.
E a orgia moral e jurídica, nua e crua no caso do povo paisano, atinge uma devassidão inacreditável no caso do povo fardado, capaz de fazer o imperador Nero da Roma antiga ficar ruborizado de vergonha. No recente caso do atropelamento do filho da atriz, logo depois de tentar fugir, o atropelador foi parado por policiais que lhe exigiram uma propina. Depois de serem publicamente denunciados pelo pai do atropelante, que perdido por perdido decidiu abrir o jogo para a imprensa, os policiais em suspeição, na primeira entrevista coletiva dada pelos seus oficiais superiores, entre capitães e tenentes, foram elogiados como detentores de fichas de serviço das mais impolutas e honoráveis, até que ao serem desmascarados, foram jogados na cadeia, enquanto que os membros do tribunal militar que antes os elogiavam, agora de dedos em riste prometiam total apuração do caso e severas punições. Como sempre. Até deviam fazer um hino para esses casos.

Até que por esses dias, viu-se que a orgia da tão cantada cidade maravilhosa continuava além dos limites humanamente imagináveis. Depois de servido o prato principal da vez, forçado goela abaixo, veio a sobremesa. E põe sobremesa nisso.

O capitão da Polícia Militar do Rio de Janeiro, Lauro Moura Catarino, que também é o juiz militar encarregado de julgar os policiais acusados de extorquirem o atropelador do filho da atriz, foi preso na madrugada de sexta-feira, 27 de agosto, enquanto roubava fios telefônicos da companhia telefônica Oi. Junto dele, talvez pensando em montar um próspero negócio de cabos de telefonia, estava outro oficial, Marcelo Queiroz dos Anjos, capitão do Batalhão de Choque.

Depois de tudo isso, de todos esses acontecimentos dia após dia, caso após caso, sem dúvida alguma fica mais coerente o hino da cidade maravilhosa cantado pelos traficantes. Na gigantesca paisagem paradisíaca das belezas criadas pela Natureza, que prende a atenção de qualquer viajante, fica a triste visão de uma massa de pessoas perdidas em orgias sociais das mais impensáveis, impossíveis de serem imaginadas até mesmo por um escritor como Franz Kafka.

E no viver do dia a dia e noite a noite, entre corridas de carros descontrolados e cabos telefônicos cortados, prossegue a música ou melhor, ruídos grotescos dos bailes funk regados a drogas e alí perto, tentando compor uma triste e falsa ordem, a banda da polícia tenta animar o coreto, roído por uma colônia de cupins morais.

Enquanto isso, o garçom se aproxima para servir mais um bolo para a vítima premiada da vez, com morangos com gosto de vinagre e glacê com gosto de fel. É a cidade maravilhosa.

Imagine se não fosse maravilhosa.

Matéria a verificar:
Capitão da PM do Rio é preso roubando cabos telefônicos

terça-feira, 17 de agosto de 2010

P45 O banquete da classe média

Muita gente ainda vai ser servida...
Continua ainda, mas já com uma certa expressão de tédio na fala dos apresentadores, a divulgação de algumas notícias sobre o caso do jovem filho de uma atriz da Rede Globo atropelado e morto por outro jovem da dita sociedade da classe média, representativa do que temos de melhor e pior na política e no judiciário do Brasil. Bem, é verdade que a parte melhor é bem pequena e boa parte já emigrou para outros países, mas a vida prossegue.

Essa classe média, uma espécie de papel carbono da classe rica no que se refere às mazelas sociais e jurídicas da nossa nação, persiste no seu caminho suicida, enquanto assiste adequadamente horrorizada às notícias da morte mais recente de mais algum jovem da sua classe, morto pelas mãos de mais outro jovem também da sua classe. No final a impunidade, que é um consenso já institucional entre os papais e mamães dessa classe, faz com que o agressor caminhe tranquilo para casa, enquanto o azarado da vez é pranteado no velório. Fora, na frente da funerária ouvem-se protestos indignados por justiça e a preparação de mais uma passeata pela justiça. Na frente da casa do agressor, o advogado, dependendo do honorário recebido, esbraveja indignadas expressões de defesa do pobre e traumatizado assassino. Afinal não é todo dia que um corpo bate no nosso carro e cai a dezenas de metros de distância. Mas o heróico rapaz ainda telefonou para a ambulância enquanto fugia. O próprio Tribunal de Justiça discutiu o direito de fugir um dia desses.

Já é passado, mas foi marcante como a justiça que temos tratou os criminosos que mataram o menino João Hélio. Três maiores de idade foram presos, mas detalhe, eram da classe bandida e não da classe média. Sem dinheiro para pagar advogados famosos, foram para a cadeia, mas estarão soltos logo. O da classe "de menor" mesmo depois de tentar matar um agente penitenciário e tentar organizar um motim, já está sob proteção das organizações de amparo ao "de menor". Diversas alternativas o assistem, desde a troca de identidade até um subsídio mensal para viver. Quanto aos pais do menino Hélio, abram alas para o "de menor", que vai passando imponente. Para dar uma idéia da visão do que é Justiça independente da idade, na Inglaterra duas crianças de 10 e 11 anos que mataram um bebê foram presos, julgados como adultos e sentenciados a prisão perpétua.
No caso do jovem e do menino, um arrastado até a morte e o outro atropelado e morto, não só a situação deixa evidente esse vício da impunidade que a classe média decidiu cultuar e que com o passar dos anos transformou em lei. Afinal, aos poucos ela conseguiu se infiltrar no judiciário e no legislativo e para lá levou essas deformidades de caráter. Um deputado aqui, um magistrado alí e ano após ano tudo foi se ajeitando. Claro, as leis tem que mudar, os entendimentos jurídicos tem que mudar e acompanhar os tempos. Mudança é uma coisa, perversão é outra. Agora porque será que ela reclama com passeatas? Se bem que a passeata só leva a dois lugares. De um lado a praia, de outro os bares.

Acima de tudo assiste-se a um festival de hipocrisia onde meias verdades, quando não mentiras inteiras são ditas para satisfazer a imprensa, como no caso das declarações dos oficiais da polícia militar carioca, quando o pai do atropelador denunciou a tentativa de extorsão dos policiais que haviam flagrado o atropelamento. Desfiando um verdadeiro rosário de elogios aos dois policiais, o oficial viu-se num beco sem saída quando a história toda veio à tona. Agora estão os dois policiais de molho no presídio das polícia a esperarem duas coisas: a punição, dependendo dos ânimos do tribunal militar ou a saída silenciosa de volta às ruas, quando tudo estiver esquecido. É a classe média, de trajes civis de um lado, de farda do outro e de toga no meio.

Justiça seja feita, a justiça é sagrada, a lei é igual para todos. Mas no meu filho ninguém encosta a mão. Se foi o seu filho que deu azar, problema seu. Fazer o quê? O meu filho não sabia que era o seu. Espero que isso não atrapalhe quando nos encontrarmos na entrada do condomínio. E se eu entrar nessa, quero habeas-corpus também.

Isso é o que sintetiza o pensamento da classe média. Julgamento justo, garantias constitucionais, garantias jurídicas, tudo isso é nome de fantasia para o objetivo principal: impunidade. Desde que o sujeito possa pagar advogados caríssimos. Que o diga Pimenta Neves, assassino confesso da jornalista Sandra Gomide com quem mantinha um caso amoroso, condenado em primeira e segunda instâncias a 19 anos de prisão em regime fechado e que está soltíssimo.
Mas nem tudo está perdido. Uma passeata aqui, outra alí e pelo menos a tarde está salva. Alternativas tentadoras. De um lado um belo mergulho na praia, de outro, a tarde a bebericar em bares da moda e a discutir filósofos e juristas famosos e seus pareceres. E fazer de conta que tudo parece diferente. Na calçada, quem vai indo embora pensa que é melhor ter cuidado na hora de atravessar a rua porque todo mundo bebeu bastante. No estacionamento, quem liga o carro lembra que se acontecer qualquer coisa o advogado já disse que ele terá o direito de não fazer o teste do bafômetro.
Foi o que fiquei imaginando ao mudar de canal no meio do noticiário. Com a imagem cheia de chuviscos ainda ví o pedaço de um documentário que mostrava uma briga de cães, tradicional em alguns países. Com o triste espetáculo dos animais se atacando daquela forma, atiçados pelos seus donos, não pude deixar de fazer uma analogia com a classe média dos dias de hoje. De um lado a hipocrisia e a impunidade como donas, do outro a classe média solta sem coleira. E toca a dar dentada.

Mudei de canal, mas não era o dia de espetáculos alegres. No outro canal, com boa imagem, aparecia uma horda de mortos-vivos de um filme de terror atacando a dentadas mais uma vítima, que é claro, ia virar zumbí também.

Com seu passeio diário de impunidades às custas do sangue dos seus próprios filhos, o comportamento da classe média fica melhor retratado ou numa triste briga de cães se arrebentando a dentadas ou numa cena de fime de terror, com zumbís atacando a vítima, que depois se vê transformada num deles também.

Pela disposição e mentalidade de manter a impunidade e a justiça do faz-de-conta intocáveis por muito tempo, parece que a classe média ainda tem um longo banquete pela frente.

O que ela não gosta muito é quando é servida não pelo garçom, mas como prato pincipal.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

P44 Uma indicação inesperada

Colocando o logotipo do http://www.topblog.com.br/

Hoje ao abrir a caixa de e-mails para ver as novidades, me deparei com uma surpresa : o logotipo de indicação do Topblog.

Há coisa de um mês ao me deparar com o e-mail anterior do site, apaguei-o por confundi-lo com alguma propaganda. Desconhecia o site, que passei a conhecer agora, com uma visita inicial para ficar ciente dos temas que aborda e links a que conduz.

Uma grata surpresa tal indicação. Não aparece no logotipo por quem fui indicado. Mas agradeço a quem o fez.

Ou se a indicação decorre de pesquisa do Topblog na bilogosfera, da mesma forma fico agradecido pela leitura dos textos aqui colocados.

Amanhã, ao final da noite, colocarei um texto sobre a triste festa da classe média, na qual ela desejaria ser a última convidada. Um leitor há algum tempo atrás achou que alguns textos meus ferem sensibilidades. Na verdade até vejo bilogues com palavras bem mais pesadas do que as minhas. Fico imaginando o que pode ser.

Enfim, no Brasil atual, quem gosta de política tem um manancial inesgotável para estudar. Pena que o manancial não seja propriamente de águas límpidas.

Um grande abraço aos leitores e aos indicadores.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

P43 Na forma do crime

Atores e roteirista caíram na real...
Terminou há poucos dias de forma silenciosa o seriado da Rede Globo "Na Forma da Lei" onde de forma imponente e audaz, pouco característica dos atores brasileiros, um grupo de policiais aplicava a "dura" lei brasileira contra os bandidos, que variavam de bandidos comuns a políticos famosos. Em tom de ação e ângulos de filmagem que procuravam lembrar seriados americanos como o famoso "Law and Order" os atores e o roteirista tentaram, talvez, dar uma visão do que pode vir a ser a lei e a ordem no Brasil algum dia, porque nos dias de hoje é totalmente inacreditável. O seriado pecou desde o início por falta de credibilidade, querendo passar a imagem de uma justiça e lei duras no combate ao crime. Enquanto uma das atrizes da mesma emissora lamentava a morte do filho, atropelado por um jovem da classe média que logo apelou para a lei que os protagonistas diziam seguir para se ver livre das consequências do seu ato, ficou claro que o seriado era totalmente desprovido de lógica.

Talvez com indulgência podemos dizer que foi uma tentativa de ver a lei e a justiça aplicadas com o rigor e o respeito que existe em qualquer sociedade que tenha alcançado ao menos uma incipiente civilização judiciária. O espectador depois de ver no noticiário da emissora criminosos ricos e famosos escapando da lei com risos e continuando a frequentar bares e restaurantes sossegados, não poderia mesmo continuar assistindo o seriado. Mudaria de canal como fez para assistir um seriado como o americano "Law and Order" onde os criminosos, sejam eles famosos, juízes, políticos e outros do mesmo tipo são implacavelmente perseguidos, despojados de seus cargos e levados para o presídio depois de um julgamento rápido, totalmente ao contrário do que ocorre no Brasil, onde os criminosos ainda verberam ameaças de processos a quem repare em sua impunidade.

As atrizes e os atores fazem uma boa presença e tentam, pelo menos no imaginário do roteirista, aplicar o que qualquer ser humano de bom senso entende como justiça para proteger a sociedade, mas tem que seguir o que é dado pelo nome do seriado, ou seja, a forma da lei e ainda por cima a brasileira, o que inviabiliza qualquer tentativa de fazer justiça. Luana Piovani como delegada e Ana Paula Arósio como promotora estariam melhor aproveitadas num seriado americano com leis americanas. Nesse foi puro desperdício com elas e com os outros atores, que pelo semblante pareciam mesmo pouco convencidos da veracidade de seus papéis.
A essas duas candidatas a heroínas só restou mesmo aceitarem a total fantasia de seus papéis e assistirem com um suspiro de resignação o desenrolar de mais um episódio do seriado americano "Law and Order" onde os protagonistas tem a seu favor a lei e o judiciário americanos, o que lhes dá munição suficiente para acabar com qualque bandido, onde depois de uma perseguição, os criminosos, sejam eles políticos famosos ou juízes federais, terminam perseguidos e presos.

Igualmente belas e com boa presença na tela, as atrizes americanas do seriado "Law and Order" tem a seu favor um judiciário sério e competente, portanto podem sair para verdadeiras expedições punitivas contra o crime. Os policiais que as acompanham não hesitam em passar algemas em público nos criminosos, sejam eles um bandido perseguido ou mesmo um agora ex-colega pego enfiado em algum crime, que termina despojado do seu distintivo, algemado e encarcerado ou algum político pego num ato de corrupção e que termina na cela ao lado.
Lógico que aí o espectador brasileiro se sente gratificado. Percebe que lei e a ordem naquele momento em que ele está na frente do televisor valem realmente alguma coisa, ao menos em algum país onde um seriado para ser feito segue a lógica de que ao menos precisa ter seriedade para igualmente ser levado a sério. Ainda que órfão de justiça, o telespectador brasileiro se sente amparado ao menos por um roteirista e atores de um país distante que lhe diz que a justiça, aqui ainda um sonho, é sim possível.
Audazes e corajosos, os protagonistas de "Law and Order" perseguem os que quebram a lei com um rigor que é desconhecido no Brasil. Ao menos esse rigor só é conhecido por aqui contra os pobres e os cidadãos comuns. Os juízes americanos sentenciam baseados num judiciário sério, atribuindo a pena sem levar em conta o nível social dos réus no tribunal, pondo abaixo as tentativas de advogados mercenários de conseguirem uma liberdade injusta e carregadas de privilégios. Até mesmo um ex-magistrado pego num crime é visto pelo outro juiz como merecedor da pena mais severa por ter usado o poder da lei para a delinquência. Igualmente o juiz condena qualquer um que tente ocultar provas de forma tão severa quanto o principal acusado.

Feliz, o telespectador brasileiro vê, em certos episódios, os criminosos condenados, sejam eles milionários, juízes ou políticos, de uniforme laranja, respondendo a mais uma chamada dos guardas ao raiar do sol e depois acorrentados, indo trabalhar mais um duro dia em alguma estrada ou rachando pedras.
Exatamente por contarem com essa formidável retaguarda jurídica e legal os policiais de "Law and Order" passam credibilidade, fazem o espectador se emocionar e desligar o televisor com a certeza de que ao menos na América a lei e a ordem são levadas a sério. Exatamente o que ele pensou ao mudar de canal ao perceber a esquálida ficção do seriado brasileiro "Na Forma da Lei". Aliás, a forma da lei no Brasil já diz tudo.
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Depois de ter visto no noticiário mais um atropelador saindo tranquilamente da delegacia para mais uma noitada, depois de liberado pelo delegado, o telespectador sente que a trama do seriado brasileiro definitivamente não é séria. Acompanhando o noticiário ele fica sabendo que o pai do atropelador tentou de forma premeditada apagar todas as provas do crime e isso só lhe rende um bem calculado depoimento na frente do delegado. Logo depois ele fica sabendo de mais um magistrado envolvido em atos de corrupção e que como punição foi aposentado pelo Conselho Nacional de Justiça. Lógico que a ele só resta mudar de canal. Mesmo num episódio de ficção ele vê a seriedade de uma outra estrutura política e judiciária que ele não tem aqui.
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Ao telespctador só resta chegar à triste conclusão de que ao desligar o televisor e deixar de fazer parte daquele momento de bela ficção, ele estará entregue a essa estrutura judiciária e política brasileira, onde o crime predomina, redige as leis e controla o judiciário, poderes que dizem representar o povo. Isso sim é uma ficção e que de bela nada tem.
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Lógicamente não é o povo como entendemos. É o povo que segue o que se diz "na forma da lei".

segunda-feira, 26 de julho de 2010

P42 A lataria e o martelo

Modelos políticos e uniformes...
Prossegue sem maiores novidades e provavelmente terá o velho e conhecido fim de impunidade para os envolvidos a tragédia que se abateu sobre a atriz Cissa Guimarães, que teve o filho Rafael Mascarenhas atropelado e morto por um motorista que fazia um racha num túnel interditado no Rio de Janeiro, onde Rafael andava de skate com os amigos.

Depois do atropelamento um caso escabroso começou a ser mostrado para todo o Brasil após a identificação do motorista, que ao mesmo tempo em que era mostrado próximo do túnel sendo parado por uma viatura da polícia militar e sendo liberado, trouxe à tona revelações surpreendentes. Segundo ele os policiais sabiam do atropelamento e exigiram uma propina para manterem-no oculto. Assim que saiu a notícia o comandante dos policiais, em entrevista coletiva teceu todos os elogios possíveis aos dois envolvidos, até que a Rede Globo mostrou um vídeo de câmeras de segurança que quase confirma a versão do motorista. Na frente de imagens indesmentíveis, o comandante deixou de lado os elogios e anunciou a prisão dos envolvidos.

O que fica claro no episódio todo, vendo as imagens dos comandantes da Polícia Militar, é uma sensação insuportável da visão de conceitos políticos e sociais dos mais anacrônicos estampados em suas fardas. Quem viu os noticiários se lembra do comandante da corporação com sua farda ostentando uma inacreditável profusão de botões e enfeites de metal nos ombros que nos tempos atuais beiram o ridículo. Tanta lataria para tão tristes resultados. Aliás em todos os acontecimentos onde apareça algum comandante da polícia militar de qualquer estado brasileiro a imagem é sempre essa: um verdadeiro mostruário de botões, estrelas, comendas, latinhas e coisas do tipo. A explicação para isso, fazendo uma comparação com uniformes de outros países que se regem com outro pensamento social e político é simples.

Um exemplo marcante vem do exército americano. Pouco depois da virada do século passado os militares americanos deixaram seus uniformes mais contidos, com as antiquadas e excessivamente vistosas comendas de lata fora de seus uniformes, trocadas por pequenas tiras de tecido que indicavam a especialização e títulos de honra de seus portadores, com o mínimo de enfeites de metal em seus trajes, usados apenas para a diferenciação de traje militar com os símbolos da nação e da arma a que serviam.

Isso vem da mentalidade política dos americanos, adquirida na época da Revolução Americana de 1776 quando se revoltaram contra a tirania do rei inglês e efetivamente lutaram para ter sua nação. Avessos aos títulos de bajulação e sujeição política, retiraram do tratamento para as autoridades os títulos honoríficos e de nobreza exagerados, na visão deles apenas uma forma de humilhar o cidadão e submetê-lo a uma desigualdade absurda.

A visão da farda do General George C. Marshall mostra bem essa concepção. Um dos comandantes militares mais conceituados da 2a. Guerra Mundial, arquiteto do Plano Marshall que reergueu a Europa e estrategista de planos de batalha decisivos, a figura e a farda do General Marshall mostram a felicidade e o acerto dessa concepção política com sua sobriedade imponente.
Já do nosso lado, podemos pegar uma figura exemplar do apego e até mesmo da voracidade por títulos honoríficos e de nobreza desmesurados e ao mesmo tempo vazios, também passados para adornos e enfeites de trajes oficiais e fardas, assumidos e cultuados como forma de tratamento e visão das autoridades do modo mais absurdo possível, afastando toda e qualquer idéia de igualdade e comedimento. O maior exemplo está na farda dos militares sul-americanos. Ela retrata bem o que aconteceu nos países de língua espanhola e no Brasil, quando as metrópoles coloniais estavam tão enfraquecidas que seus imperadores não tiveram outra escolha a não ser abandonar suas colônias, que no mesmo momento foram tomadas por mandatários locais que absorveram assim nos tratamentos exigidos para seus nomes e nas espalhafatosas fardas que criaram, a postura dos velhos imperadores perdulários e atrapalhados, que tinham em seus herdeiros seus mais perfeito e em alguns casos, pior retrato.

Como não poderia deixar de ser, tal pensamento político, um verdadeiro rosário de misérias morais, tomou forma nos títulos honoríficos absurdos e nas risíveis fardas, cheias de botões rutilantes, latarias inacreditáveis nos ombros e enormes medalhas no peito, que causavam risos entre comandantes militares americanos, com suas fardas sóbrias e elegantes.
No vestuário das polícias militares do Brasil, essa mentalidade ultrapassada e visão política anacrônica continuam na forma dessa lataria toda, também sempre brilhando toda vez que um comandante policial militar aparece num caso desses.

Infelizmente, como vimos no último caso de corrupção acontecido, onde os policiais militares tentaram extorquir o causador do acidente, não há o que conserte essa lataria.

A não ser como os dois policiais deixaram entrever com sua tentativa de extorsão, um martelinho de ouro, tão conhecido nas funilarias.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

P41 O náufrago

Naufragado em si mesmo...
Reapareceu de forma melancólica por esses dias o por assim dizer ainda líder Fidel Castro, que um dia figurou nos noticiários do mundo como o libertador de Cuba, ao derrubar em 1959 a ditadura de Fulgêncio Batista, que havia se tornado um condomínio de empresas e mafiosos norte-americanos. Com a ditadura de Batista apoiada nas ações de uma polícia e forças armadas corruptas e de extrema brutalidade, Castro e seus companheiros de luta apareciam nas fotos da época como a imagem perfeita dos revolucionários românticos e salvadores de um povo oprimido.

Infelizmente devido á sua orientação pró-soviétiva e ao bloqueio norte-americano, seu governo, que ainda tinha um certo respaldo da população, com o povo exigindo seu retorno ao poder em 1959 logo após um desentendimento com o presidente Manuel Urrutia mesmo com sua postura ditatorial, logo levou Cuba a outro martírio que dura até os dias de hoje, mesmo tendo Castro caído doente em 2006, quando teve que deixar o poder nas mãos do seu irmão Raul Castro. Quando o povo cubano exigiu sua volta, o via como o déspota esclarecido, que apesar de governar com mão de ferro, faria de tudo para o bem do povo.

Amargurado e depois impotente sem condições de reagir, o povo cubano viu que Castro, seguidor incondicional do pensamento soviético tanto nos moldes de administração como no culto stalinista da veneração devida pela nação à figura do ditador, havia se transformado no oposto do que ele sonhara e aclamara.

Uma das mais repressivas ditaduras do mundo surgia e com ela o sofrimento do povo cubano que dura até hoje, só tendo a esperança de dias melhores para os próximos anos porque assim como seu criador, o regime cubano se esvai a cada dia e a presença norte-americana se faz cada vez mais próxima. No dia em que Cuba reatar relações com a América, terá ruído de vez o que um dia se chamou Revolução Cubana. Ficará na memória a longa e penosa caminhada do povo de Cuba e ao contrário do que um dia disse Castro, a História não o absolverá.

Um dos símbolos da opressão da ilha é a marinha cubana que todos os dias patrulha o alto mar, mas de forma particular. Sua missão não é impedir a entrada de possíveis invasores, já que não tem forças para isto, mas interceptar os fugitivos da ilha que tentam em barcos improvisados e em bóias alcançarem o litoral americano a 170 kms. de distância. Ao longo desses anos de poder do regime castrista, muitos conseguiram chegar até as praias americanas, um número jamais sabido afogou-se no mar e outro número só conhecido das forças cubanas terminou capturado e repatriado para prisões em Cuba.
Cedo começaram as divergências contra a visão ditatorial calcada no personalismo e infalibilidade das decisões do ditador, ainda mais na absoluta concordância que lhe era devida sob pena de prisão ou execução, exatamente como nos tempos de Stalin na antiga União Soviética.

Emblemática da postura adotada por Fidel Castro sobre a figura do dirigente comunista é uma das memórias de Nikita Krushev, quando presente num discurso feito por Stalin. Seu poder de intimidação era tal que por inacreditáveis 5 minutos os comissários políticos presentes no discurso não paravam de aplaudir e ovacionar Stalin. Parar de aplaudir ou sentar-se quieto equivaleria a ser preso pelos membros da polícia política e daí ser encaminhado para a prisão. Só pararam quando o ditador fez um sinal. Essa foi a visão que Castro preferiu para governar Cuba. E foi assim que os cubanos se acostumaram a ouvir em pé, discursos de 3 a 4 horas do seu líder, enquanto os membros do CDR, o Comitê de Defesa da Revolução andavam entre o povo.

Um dos primeiros a discordar foi Huber Matos, que lutou junto com Castro na revolução, mas terminou preso em 1959, condenado a uma pena de 20 anos, saindo inválido da prisão. Na época membros do governo que ousaram questionar a prisão dele foram destituídos de seus postos e colocados sob vigilância.
Camilo Cienfuegos, também combatente da revolução e que efetuou a prisão de Matos, morreu num acidente de avião ao retornar para a capital. Carismático e bem aceito pelo povo cubano, poderia ter influído em alguma mudança na forma de governo, mas isso permanece no ambito das especulações.
Outro líder que também dividia as opiniões e atenções em Cuba era Che Guevara, que também carismático e arrojado fazia sombra contra a figura de Fidel Castro. Decidindo partir em uma tentativa de subverter os governos da América Latina a partir de uma revolução na Bolívia, viu-se, depois de internar-se nas selvas bolivianas, completamente abandonado pelo regime cubano, que ao mesmo tempo que mantinha abastecidos esquerdistas de outros países sul-americanos, deixou Che Guevara numa situação de inanição.

Caçado por tropas treinadas por forças especiais americanas, logo terminou preso e executado. Alguns estudiosos da revolução cubana veem aí uma silenciosa e bem sucedida manobra de Castro, condenando seu antigo rival a um fim obscuro.

Seja como for, tendo levado o povo cubano a um longo período de opressão, onde privações e pobreza se tornaram o viver comum do dia a dia, assustados com as patrulhas das forças policiais e forçados a reelegerem Castro eleição após eleição, já que só ele era candidato, o cidadão cubano nada podia fazer contra a verdadeira estrutura de vigilância e repressão em que se tornou a ilha, mantida por aquele comandante no qual um dia depositou toda a sua fé.

Assim, de uma forma melancólica termina seus dias na mais completa solidão, cumprimentado por seus partidários e membros próximos do governo que lhe prestam homenagens e cumprimentos por obrigação, mas mais do que isso, por temor.

Hoje sem saúde, Castro se tivesse optado por outra forma de governar seu povo, poderia ser alvo de homenagens sinceras, receber cumprimentos que atestassem a gratidão de um povo e acima de tudo de estar numa praça tomando sol rodeado de pessoas carregadas de respeito por ele, mas seguiu o caminho contrário.

Um triste fim para quem um dia foi a esperança de um povo. Se formos usar a figura do náufrago para exprimir essa solidão, hoje esquálido e doente mas ainda temido, Fidel Castro é a imagem mais bem acabada desse desastre político, sozinho em sua própria ilha de opressão.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

P40 Corações e máquinas

Corações de aço...
Após a reedição de textos sobre o conflito entre Israel e a Palestina, vejo nos jornais que um novo comboio de navios começa a ser organizado para tentar furar o bloqueio até a Faixa de Gaza pelo mar. É mais do que apenas mais uma vez Israel declarar através de seus porta-vozes que irá jogar toda força militar sobre esses navios. Não só a opinião pública mundial estará mais atenta como também começam a aparecer cada vez mais testemunhas do que já aconteceu e do que pode acontecer.

Causa pesar que os filhos de um povo que já esteve cercado no Gueto de Varsóvia durante a 2a. Guerra Mundial pelas tropas nazistas, não veja hoje nenhum erro em proceder como seus antigos captores, quando prendiam e executavam os que levavam alimentos para dentro do gueto de forma clandestina. Fica fácil para Israel acusar tudo e todos de terroristas, de chamar até crianças palestinas de terroristas também enquanto que em seus quadros de fotografias no Yad Vashem ou Museu do Holocausto em Jerusalém o papel das crianças judias quando conseguiam levar alimentos aos judeus cercados no gueto seja visto de forma diferente.

Para Israel nada há de errado em ser indiferente para com o destino de crianças palestinas perdidas em campos de refugiados ou atingidas em bombardeios contra populações civis, enquanto que ao mesmo tempo cobra de forma silenciosa lágrimas dos visitantes do museu ao verem fotos de crianças judias executadas pelos soldados nazistas. E que diferença existe entre estes pequenos corpos? Que diferença podemos ver entre os corpos de crianças judias mortas em 1943 por tropas nazistas que sabiam para onde atiravam e entre os corpos de crianças palestinas mortas por soldados israelenses em 2010, que também sabiam para onde atiravam? Que diferença terão as lágrimas então? Os israelenses acham essa comparação injusta, mas caiu no consenso do mundo.

Quando em 1948 se lançaram na hoje tão lamentada criação do estado de Israel, os judeus talvez nem por um instante imaginassem que o povo que varreram a fogo de metralhadoras da terra que diziam ser sua por direito divino pudesse se organizar em um exército de guerrilhas que sobrevive aos tempos e adota nomes que refletem seu extremismo. Diziam os sionistas que a criação de Israel era a destinação de uma terra sem povo para um povo sem terra. E os palestinos estavam lá porquê?

Uma cruel ironia da história esse modo de ver as coisas. O nazismo doutrinava seus soldados para verem como povo apenas o povo ariano, um povo eleito pelas suas virtudes proclamadas pelo regime. Os habitantes de outros países não eram um povo, eram apenas um obstáculo a ser removido pela força militar. O sionismo não pensa muito diferente. Terra apenas para o povo eleito, pelas suas virtudes auto-proclamadas e por um decreto divino. Quanto ao resto dos habitantes da região, apenas um obstáculo a ser removido pela força das armas, como ensinam aos seus soldados. Quem pode esperar a paz agindo assim? Vendo nos livros de história como terminou o nazismo, é pouco provável que o sionismo tenha um fim diferente.

Para Israel é fácil chamar o grupo palestino Hamas de grupo de terrorista. E o que era o Irgun no passado, na época da criação do seu estado? Um grupo judeu extremista que cometia atos de terrorismo contra os civis palestinos e as tropas britânicas em 1948, como no atentado contra o Hotel King David que matou 91 pessoas. Mas esses são diferentes, eram heróicos combatentes sionistas. Falar que eram terroristas estraga o cenário. Terroristas são os combatentes do Hamas, que faz a mesma coisa que o grupo judeu fazia em 1948. Mas aí é diferente. Enquanto isso crianças judias choram ao serem socorridas após mais um ataque de foguetes contra uma cidade israelense. E fazendo tudo o que fazem, os israelenses esperavam receber o que em troca? Dos dois lados, crianças são as maiores vítimas. Dos dois lados, pequenos feridos que viram a morte de um familiar ou de um amigo tornam-se radicais dispostos a tudo.

O que é mais impressionante em todo esse cenário é que aos poucos, como numa transformação silenciosa, em cada pessoa o coração vai se tornando de aço, tão igual como o das armas ou máquinas de guerra. Dos dois lados as batidas dos corações deixam de ser ouvidas como são.

Passam a serem ouvidas no ruído de uma metralhadora ou nos passos cadenciados da interminável fila de soldados suicidas que se apresentam contra Israel.