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quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

P114 Para refletir

Muito além da política...
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No jornal Folha de São Paulo, de 25.12.14, apareceu uma interessante combinação de fotos, na seção de álbuns fotográficos.
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Uma imagem bem distante de nós
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Uma imagem bem próxima de nós
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Parece que nem moramos no planeta onde existe a Faixa de Gaza. Ou pior, moramos.
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Vellker

sábado, 8 de outubro de 2011

P84 Um homem e seu sonho

Um sonho de todo ser humano...
Ainda sob o impacto da morte de Steve Jobs há três dias atrás, seus admiradores no mundo inteiro relembram com tristeza pela sua perda, a imagem de um dos criadores do computador pessoal que representou um marco inesquecível na história do mundo. Com sua aparência sempre informal nos modos e na vestimenta, sempre lembrando a mistura de autodidata, empresário, sonhador e cientista, Steve Jobs deixa uma marca toda própria num dos processos civilizatórios mais importantes pelos quais o mundo já passou.
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Mais do que isso, junto com o progresso que trouxe para o ser humano com a concretização de suas idéias, muitas vezes incompreendidas tamanho o alcance de sua visão, ele deixa também uma lição de vida que serve de exemplo a todos que trilhem um caminho semelhante e que ao mesmo tempo que tenham sonhos, se vejam premidos por todo tipo de dificuldades. Filho adotivo de uma família de poucos recursos, sempre interessado em ciências, Jobs deu mostras de sua tenacidade ao entrar numa universidade. Quase sem recursos para pagar as mensalidades, até mesmo catava latinhas de refrigerantes para reciclagem, com o que amealhava recursos para pagar suas contas. Mas mesmo com todo esse esforço foi obrigado a abandonar seu curso. Não abandonou porém seus sonhos.
Ao lado de seu companheiro de idéias, o engenheiro eletricista Steve Wozniac, deu os passos decisivos na criação do Apple I, o primeiro computador pessoal a alcançar sucesso entre as pessoas comuns e realmente abrir as portas de um novo processo de civilização que hoje alcança todas as pessoas do mundo. Numa época em que os circuitos eletrônicos digitais começavam a se tornar pequenos mas potentes o suficiente para serem montados por dois técnicos numa garagem, os dois amigos precisaram vender o único veículo que dispunham para transporte para financiar a compra de materiais para tornarem real o que hoje chamamos de computação pessoal. Na época Jobs já era um defensor entusiasmado do que ele dizia ser a possibilidade de levar o poder dos grandes centros de computação, até então fechados ao comum dos mortais, para entregá-lo à criatividade, lazer e cultura de milhões de pessoas pelo mundo afora. E conseguiu tal proeza.
Na história da civilização humana desde tempos remotos, os progressos sempre foram difíceis e boa parte das conquistas arrancadas da natureza pelo ser humano sempre veio do seu caminho passo a passo na direção do conhecimento, com o que a natureza, de inimiga impassível passava a aliada sempre que seus segredos eram compreendidos e transmitidos para as novas gerações.
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Ao longo de milhares de anos, o conhecimento acumulado deixou de ser estático em imensas bibliotecas para ser dinâmico em gigantescas máquinas de processamento desse mesmo conhecimento. Até mesmo pelas imposições da tecnologia disponível isso só podia ser feito em imensos centros de processamento. Na época em que iniciou seus estudos, Jobs foi um visionário que via na tecnologia já acessível do seu tempo a possibilidade de miniaturizar aquelas máquinas tornando possível que todas as pessoas dispusessem de toda a força do processamento das informações acumuladas pela humanidade em todos esses milhares de anos.
Com a criação em definitivo da indústria da computação pessoal, tornando a informática um meio de desenvolvimento pessoal, educação e aprimoramento de milhões de pessoas pelo mundo todo, Jobs desencadeou uma revolução na qual nem ele mesmo com toda sua genialidade esteve imune aos efeitos de mudanças abruptas. Foi essa mesma genialidade que se em determinado momento o tirou da liderança de sua empresa, o trouxe de volta tempos depois exatamente para impulsionar a criação de mais e mais aparelhos que elevaram a computação pessoal a um nível do qual talvez nem mesmo ele pudesse sonhar quando começou sua jornada.
Já doente desde 2004 com um câncer de diagnóstico negatvio, ainda assim Jobs demonstrou mais uma vez sua capacidade de superar os problemas que se abatiam sobre ele e lançou-se à luta contra a doença. Mesmo sabendo de que talvez não tivesse muito tempo de vida, assim que se recuperou após o primeiro tratamento, voltou à ativa na sua empresa e deixou o mundo assombrado com suas aparições em apresentações onde demonstrava novos aparelhos criados pela sua empresa, baseados sempre em suas idéias e observações de que os produtos deveriam ser simples, elegantes e funcionais, acima de tudo porque eram destinados à computação pessoal.
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Steve Jobs morreu mas deixou esse legado de um avanço sem precedentes na história da civilização pelos meios que criou desde um simples começo com expectativas nada animadoras até chegar a uma das maiores empresas do mundo, sempre orientada pelo seu gênio criativo. Hoje não milhões, mas bilhões de pessoas tem ao seu alcance tudo o que o processamento de informações pode oferecer em termos de lazer, conhecimento e desenvolvimento pessoal.
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Tudo isso que o mundo hoje desfruta se originou de um sonho que esse gênio jamais abandonou, mesmo quando as dificuldades o cercavam por todos os lados.
Numa imagem simples, como era seu estilo, seus seguidores o homenagearam após sua morte, profundamente entristecidos pela perda do criador de inventos que alteraram suas vidas para melhor.
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Sempre nos livros de história, a vida e a obra de um homem chamado Steve Jobs serão lembrados da forma simples que ele deixou como sua marca pessoal, mas a magnitude de sua criação será de uma riqueza sem fim ao longo dos tempos que virão.

domingo, 11 de setembro de 2011

P81 Lembranças de um dia triste

Era um dia como qualquer outro...
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11 de setembro de 2001. Milhões de pessoas foram se aglomerando em volta de aparelhos de televisão e viram o inacreditável.
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Naqueles momentos, era difícil acreditar mesmo. Era simplesmente impossível aceitar que tudo tudo aquilo estava acontecendo. Mas era verdade.
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sexta-feira, 2 de setembro de 2011

P80 Se você acredita...

Dependendo do que você disser...
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Se por acaso você estiver no consultório de um psicológo, em processo de avaliação para ser admitido em alguma empresa no emprego que você sempre quis, o médico vai fazer algumas perguntas para testar sua coerência e sanidade mental.
Se você disser sinceramente que acredita em duendes, ele vai entender que sua crença vai ser até benéfica nos processos criativos no setor de publicidade da empresa.
Se você disser convicto que acredita em discos voadores, ele vai anotar que sua crença vai ser útil em inovações tecnológicas no setor de engenharia da empresa.
Se você disser que acredita realmente que Papai Noel existe, ele vai fazer a recomendação de que sua crença será útil no setor de relações públicas da empresa.
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Já quase lhe recomendando você para o emprego, ele ainda vai fazer mais uma última pergunta, para testar de vez sua sanidade mental.

E se você disser emocionado que realmente acredita em políticos brasileiros, qualquer chance de conseguir esse emprego acaba de ser jogada no lixo.
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Para ver se você não está brincando, o médico vai fazer uma última e definitiva pergunta.
E se você disser com toda emoção que além de acreditar em políticos brasileiros, você também realmente tem fé e acredita piamente na justiça brasileira, é provável que ele chame os seguranças da empresa para que ponham você na rua agora mesmo.

domingo, 31 de julho de 2011

P76 Vale-tudo

Em apenas poucos dias, as manchetes do vale-tudo...
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Para ter uma idéia, mais uma, da situação política e social do país que é sempre vista e analisada por leitores que gostam desse tema, basta coletar as notícias que lemos nos jornais sem nem mesmo completar uma semana.
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No dia 28 de julho, políticos presos sob a acusação de desviarem 10 milhões de reais da prefeitura de Taboão da Serra em SP, foram libertados e responderão o processo em liberdade.
No mesmo dia 28 saiu a notícia de que um desembargador paulista pediu desculpas publicamente para a mãe de um rapaz morto em 1998 após acidente com uma viatura da polícia. Desde 2001 o recurso que ela impetrou no processo contra o estado estava esquecido dentro do TJ-SP.
No dia 29 o apresentador de programas policiais José Luis Datena deixou a Rede Record após trabalhar 43 dias dos 1.825 dias que previa o contrato assinado entre ele e a emissora. Ao ir para a Record Datena teve perdoada uma dívida de 15 milhões de reais da saída anterior da emissora. Assim que a dívida foi perdoada em acordo judicial, passou a alegar censura e abandonou a nova emissora.
Na mesma página saiu a notícia de que uma ex Ronaldinha admite hoje que namorou Ronaldinho em sua fase áurea por dinheiro dizendo que era por amor. Gorda e banida da TV, conta que queria mesmo fama e riqueza mas ficou sem dinheiro e aceitou fazer fimes pornô e depois perdeu tudo de novo. Aí passou a fazer programas com executivos.
No dia 30 saiu a declaração da moça que atropelou e matou um jovem em São Paulo. Segundo o médico que atendeu a ocorrência, ela estava alcoolizada e seu namorado também. No momento do acidente recusou-se a fazer o teste segundo os policiais e depois ela disse que nem a polícia e nem os médicos do instituto médico legal se lembraram de fazer o exame. E nem ela. Apesar do jipe blindado ter capotado e ter ficado muito danificado, ela afirmou que dirigia a apenas 30 km. por hora.
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No mesmo dia 30 saiu a notícia de que a presidente Dilma, irritada com as atitudes e denúncias contra Ricardo Teixeira, decidiu não recebê-lo para manifestar seu desagrado. Mostrando o que seus assessores chamam de mais completo repúdio, apareceu na solenidade e discursou obedientemente no mesmo recinto em que estavam Ricardo Teixeira e Joseph Blatter, também acusado de graves irregularidades. E apesar de ser contra a exclusividade dada pela FIFA para a Rede Globo, aceitou discursar sem dizer uma palavra que fosse de estar contrariada e além disso, de estar no comando. Segundo seus assessores, sua atitude foi firme. Talvez possamos entender isso como de firme obediência ao que já foi acertado entre os que vão ganhar dinheiro às custas do Brasil.
22 políticos acusados de fraude contra uma prefeitura libertados em menos de 100 dias. Uma mãe que tenta processar o estado pela morte de seu filho e tem seu processo esquecido por 10 anos. Um apresentador que diz denunciar crimes e que tem uma dívida perdoada e então rompe o contrato com quem o desobrigou. Uma ex vedete que diz que na verdade só se interessava pelo dinheiro de quem dizia amar. Uma jovem que atropelou e matou que faz um depoimento absurdo no escritório do seu advogado. Uma copa do mundo que antes de começar mostra claramente como está eivada de corrupção. Uma presidente que tenta aparentar que manda nessa bagunça e que diz que é contra o principal acusado e no entanto vai de cabeça baixa discursar no evento que ele montou junto com outro acusado. E são apenas notícias rotineiras.

segunda-feira, 21 de março de 2011

P65 Simplesmente heróis

Uma linhagem de samurais...
Na foto acima vemos um grupo de pilotos kamikazes em 1945. Era comum antes de partirem para as missões de combate contra as forças navais americanas que tirassem fotos, mandadas depois como lembrança para suas famílias. Desses nenhum sobreviveu. Apresentando-se como voluntários frente ao avanço da frota americana no mar do Japão, com sua marinha destruída e sua força aérea reduzida a poucas centenas de aviões e até mesmo com munição racionada, eles aceitaram como última linha de defesa o plano de jogarem seus aviões contra os navios americanos com as bombas sob os aviões armadas e prontas para explodirem.
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O porta aviões americano Yorktown afundou na batalha aeronaval de Midway atingido por um ataque suicida do avião pilotado pelo Tenente Joichi Tomonaga. Já tendo participado do ataque à ilha de Midway, seu avião voltara avariado e ficara só com um tanque em condições de uso. Não teria como voltar da missão de ataque ao porta aviões. Ele decolou para sua última missão sabendo que não retornaria. Com a aproximação da frota americana, quando os kamikazes começaram seus ataques, 81 navios americanos foram atingidos. O resultado era sempre o mesmo, avarias graves ou afundamento.
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Na foto abaixo vemos o momento próximo do impacto de um avião kamikaze japonês contra o cruzador americano Missouri, enquanto a guarnição de artilheiros tenta atingi-lo com suas metralhadoras antiaéreas. Mesmo enfrentando o impacto das balas ele avançou até o fim. Não existem relatos de kamikazes que tenham desertado de sua missão. Sobreviventes existiram pelo fato de terem seus aviões avariados pelo fogo anti-aéreo caindo no mar ou então porque antes de sua partida a guerra terminou. Mas nenhum deles desonrou sua palavra de dar a vida para defender o Japão.
É exatamente essa linha de heróis que ressurge num momento trágico para o povo japonês depois do desastre natural que o atingiu e que provocou a reação nuclear descontrolada dos reatores da usina nuclear de Fukushima. Os bombeiros, pilotos de helicópteros e técnicos da usina que tentam diminuir o vazamento de radiação, todos voluntários, lutam para defender sua nação e seus cidadãos de uma situação ainda pior, o completo derretimento dos reatores e a dispersão de uma radioatividade dezenas de vezes mais forte e letal na atmosfera.
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Mas sabem de uma coisa. Que seus trajes de proteção, para uso em condições normais de trabalho são apenas uma proteção mínima, já que foram projetados apenas para tarefas de inspeção de partes dos reatores com radiação alta, mas sob controle quando a operação é em máxima força mas controlada por compartimentos que isolam a radiação e que ainda assim passa para o exterior. Hoje todo esse sistema de proteção está destruído e eles estão expostos de tal forma que por vezes tem que se afastarem antes que percam os sentidos.
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Sabem portanto que estão entregando suas vidas a uma morte precoce e dolorosa e o que é pior, lenta. Mas se entregam a esse sacrifício pelo amor ao seu país, para salvarem quantas pessoas puderem, enquanto as equipes de resgate na área também são aos poucos contaminadas, mas continuam sua tarefa de busca de sobreviventes e corpos e ao mesmo tempo coordenam a distribuição de víveres aos desabrigados. O código de honra e coragem dos antigos samurais não poderia ter seguidores mais corajosos do que estes.
O último grande ato de sacrifício no melhor estilo samurai foi o do escritor Yukio Mishima, que na adolescência acompanhou a guerra e suas consequências sobre o Japão, viu o reviver de sua nação e tornando-se um polêmico escritor, criou uma organização paramilitar com a missão de defender e reavivar comportamentos tradicionais de honra e decência que ele dizia estarem desaparecendo no Japão da década de 70, que para ele, se experimentava um progresso admirável, também trazia do Ocidente valores condenáveis como o indvidualismo exacerbado, a falta de lealdade e o hábito de viver em desonra, coisa não muito incomum na atitude de grandes corporações que viam apenas o lucro como valor máximo, comportamento que já havia também contaminado a política da época. Invadindo um quartel para exprimir frente aos soldados e à imprensa seu inconformismo com um manifesto apelando para o retorno aos valores de honra, percebeu que fora ignorado. Vendo que havia fracassado em sua missão, retirou-se para a sala do comando e ignorando os apelos dos comandantes que havia aprisionado, praticou o suicídio ritual dos samurais. Preferiu partir para a memória histórica do seu povo com honra do que viver perdido num labirinto de desculpas.
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Hoje vemos semelhantes atos de heroísmo, coragem e sacrifício por parte desse grupo de bombeiros, pilotos e funcionários, que na tentativa de resfriarem os reatores e de religarem a força das instalações semi-destruídas que reparam como podem numa corrida talvez inglória contra os fatos, não desistem de sua missão. Mesmo nos helicópteros, despejando toneladas de água sobre o material radioativo já quase em fusão, os pilotos são obrigados a se afastarem tamanha a dose de radiação que recebem. Da mesma forma os bombeiros que se aproximam dos reatores com os canhões de água sofrem as mesmas consequências. Enquanto isso, técnicos da usina, com seus trajes que dão uma proteção apenas precária contra a radiação se aproximam o máximo possível das instalações, tentando religar equipamentos de resfriamento para diminuírem a emissão radioativa e assim conseguirem tornar possível que o completo isolamento da radiação seja feito.
Hoje não é um combate contra um exército inimigo. A marinha americana que há dezenas de anos se preparava para invadir o Japão, hoje manda com seus navios, suprimentos, remédios e todo tipo de equipamento para ajudar na missão desses heróis.
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Com seus trajes já reconhecidos pelos espectadores do mundo todo, sensibilizados pela situação que se desenrola no Japão, os trabalhadores da usina travam uma guerra contra um inimigo temível. Existe uma grande possibilidade de que percam essa batalha e outros tenham que assumir seus lugares. Talvez mesmo essa guerra seja perdida, mas mesmo assim não desistem.
Já sabendo-se condenados pelas enormes quantidades de radiação que recebem nesse combate diário, continuam com toda sua coragem trabalhando na área da usina, agora um campo de batalha, mostrando não só ao seu povo, mas também aos cidadãos do mundo que existem ainda heróis anônimos, capazes dos mais altos sacrifícios em defesa do seu povo e dos valores mais altos de coragem, lealdade e honra.
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T
emos aqui no Brasil uma profunda ligação e laços de sentimento e irmandade com o povo japonês, cuja colônia é descendente das levas de milhares de imigrantes que vieram para cá tentando uma vida melhor. Com seu trabalho duro e com sua notável disciplina oriental, ajudaram a moldar e formar um tipo de cultura no Brasil que é de grande valor. Mesmo sensibilizados como qualquer povo do mundo pelo que lá acontece, sentimos com mais intensidade do que os outros estrangeiros o que ainda sucede naquela terra.

Não podemos escolher quando será a nossa morte, mas se um dia estivermos em situação semelhante, deveremos numa prece silenciosa pedir a mesma coragem para um ato de tamanho heroísmo.
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Agora, em prece igualmente silenciosa mas carregada da mais profunda emoção, devemos todos nós elevar nossos pensamentos e uma oração a esses heróis, que com sua coragem e entrega, tornam possível a todos nós que ainda acreditemos no ser humano e em sua capacidade de dar a vida pelo seu país e pelo seu povo, com seus corações repletos dos melhores sentimentos de altruísmo e abnegação.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

P62 Agora todo mundo corre

Se um pontapé faz isso, imagine um tiro...
Mais um dia em que vou para a casa da minha mãe, vazia desde sua morte. Tomo conta dela há tempos. Ainda não sei, mas vou chutar um amigo que ainda nem conheço. E há tempos tento controlar os ânimos com os moleques de rua. Mal-educados, relaxados e sujos como os pais, sempre na calçada maquinando o que não presta. Já troquei várias vidraças da janela. O divertimento desses pequenos animais? Chutar uma bola de futebol na janela quando estou longe. Quando chego como em outras vezes já aconteceu e falo com eles, mentem de forma descarada, crentes de que não foram vistos. E além disso, no Brasil, o que pode ser feito com crianças e adolescentes? Nada. O ECA ou a lei do Estatuto da Criança e do Adolescente lhes permite todas as patifarias, crimes e atentados contra as pessoas sempre com a hipocrisia de "proteger os menores" ou como todos sabemos, os famosos "de menor". Mas pelo estado de raiva que me toma conta, já vi que hoje vai ser diferente. Sempre acreditei que ECA está mais para Escola do Crime para Adolescentes isso sim.
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Vindo pela rua vejo de novo os pequenos vagabundos chutando a bola, até que consigo devagar chegar a meio quarteirão de distância quando eles me veem. Os dois maiores já espertos na vagabundagem saem pelo quarteirão acima e largam o menorzinho com a bola enroscada entre a sargeta e uma laje de cimento. O pequeno, já escolado na mentira tenta me dizer que "...está vendo a bola aqui, eu não estava chutando a bola...". Nem eu acreditei que tivesse voz de tenor assim para lhe berrar tão alto todos os palavrões possíveis. Mereceu, pouco me interessa o tamanho ou idade, já é um vagabundo com esse tamanho.
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Pareço agora um covarde. E se eu estivesse de frente com dois marmanjos? Mas continuo subindo a rua. E gritando todos os palavrões e piores adjetivos dirigidos aos dois sem-vergonhas que se encostaram num portão. Os vizinhos começam a sair porta afora para ver o que está acontecendo. Ótimo, é isso mesmo que quero. Dobro a esquina e vejo os dois vagabundos um pouco mais crescidos pondo em prática a primeira tática dos "de menor" malandros: se encostarem no portão de casa e fazerem de conta que não é com eles.

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Ora, parece que não está dando certo, eles olham e o sujeito continua subindo a rua, gritando e o que é pior, está indo para cima deles. O outro menorzinho já foi para sua casa que nem sei onde é. Melhor dizendo, esconderijo. Os "de menor" usam outra tática segura nesses casos e entram portão adentro. Pronto. Verdadeira proteção que nem uma embaixada oferece. Do portão para cá nem a polícia entra, estamos a salvo pensam. Continuo chegando e gritando, vizinhos todos na rua. Já imagino a polícia chegando e me prendendo e estou pouco ligando. Depois volto aqui e jogo um tijolo na casa desse desgraçado. O casal de idosos que me havia dito não ter mais paz com esses moleques me olha com um pequeno sorriso vendo o que vai acontecer. E acontece.
Vendo o portão fechado, dou-lhe um pontapé com toda a raiva que sinto. Ora essa, é assim que os ladrões arrombam casas. O portão que parecia firme se abre e bate de lado. O encaixe da fechadura cai grudado em um pedaço de tijolo e cimento. Os "de menor" me olham de olhos arregalados e entro gritando para eles todos os palavrões que já havia gritado na rua. Os três cachorros, defendendo sua casa avançam e um deles me crava os dentes na perna. Dou-lhe um pontapé e ele sai de lado. Sem saber chutei um amigo, o único sujeito decente daquela casa. Os palavrões continuam. Impublicáveis. Os mais suaves "...filhos de vagabundos...", "...agora todo mundo corre..." e por aí foi enquanto os "de menor" sumiam porta adentro e olha só, aparecem dois marmanjos. Pronto, eu sou menor que eles, é certo, antes da polícia chegar vou levar murros e pontapés e ser jogado na rua, miseravelmente quebrado. Não estou nem aí, depois que tirar a última bandagem volto aqui e cobro geral.
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Como já é habitual nos dias de hoje, os dois fazem parte da medonha figura em que tem se tornado o brasileiro típico. Chinelão, bermuda e um barrigão que completa a aparência de desmazelo e relaxo. A discussão começa, palavras feias de cada lado, mas ora essa, um deles me olha de alto a baixo de cara feia, põe as mãos na cintura e depois vai para dentro da casa. Acho que vai pegar uma arma, dane-se, estou pouco ligando. Continuo discutindo com o outro que também me olha de alto a baixo e me diz uma frase que me deixa desnorteado. Terei invadido a casa errada? Depois de arrebentar seu portão, gritar todos os palavrões a quem julgo seu filho, depois de todas essas cenas quando ele deveria avançar para cima de mim aos murros, ele me diz que:
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- Você não pode invadir o meu quintal e chutar o meu cachorro.
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Deixando claro a ele que estava alí por causa da irresponsabilidade e vagabundagem do seu filho e que as consequências seriam sempre essas se ele aprontasse bagunça novamente, trocamos mais umas palavras nada amigáveis e saio, com ele me dizendo que vai ver isso com o filho dele. Então era filho mesmo, mas ele se mostrou mais preocupado com o cachorro. Que filho mais reles. Seja lá como for, os dois pequenos meliantes já seguem os pais, bermudão e chinelos imundos nos pés. O sujeito que havia entrado na casa sai sem arma nenhuma. Apuro os ouvidos e não escuto a sirene do carro de polícia, então não chamaram ninguém.
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Descendo a rua, me lembro dos botecos onde tipos assim são a presença contínua, habitual, retrato desesperador do povo decaído em que tem se tornado o brasileiro destes dias. Sempre desmazelado e relaxado. Com esse exemplo que tipos de filhos esperam criar? Se é que criam. Os filhos olham para seus pais assim e pensam que se os pais, exemplo maior, andam pelas ruas seminús, incapazes de colocarem sapatos, uma roupa decente, de se mostrarem higiênicos, asseados, então o certo é isso, andar na rua como o papai. Como decaímos com o regime dito de "democracia e cidadania". O negócio é sentar o pé ou bala se for preciso. Desci a rua pensando que se um pontapé faz isso, o que fará um tiro então?

Na rua os vizinhos em praticamente todas as casas, olhando tudo. Acho é pouco, quero mais que o sujeito morra de vergonha. O casal de velhos ainda apreciava a coisa toda. E eu pensava como é que dois sujeitos maiores do que eu não me moeram de pancadas? Eu devia estar mesmo com uma cara de demônio. Sinto a perna doer e aí vejo na perna esquerda o rasgão e percebo uma pequena mancha de sangue. A dentada do cachorro, único amigo e figura decente e aprumada alí naquela casa, que coisa. No calor da situação não nos encontramos de forma amigável. Me viro para pegar a chave e vejo no bolso da perna direita o volume do molho de chaves junto com o aparelho que toca MP3. Só pode ser isso.
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Olho novamente e vejo que o volume no bolso parecia de forma convincente uma pequena pistola automática, as chaves parecendo uma coronha e o tocador de MP3 o cano. Não consigo imaginar outra coisa. Me lembro do outro homem me olhando de alto a baixo e ao invés de avançar para cima de mim, virou-se e entrou na casa. Terá sido por isto? Me lembro da olhada do outro também e a discussão que se seguiu depois e ele preocupado em defender o cachorro.
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Tudo indica que foi isso. Chega um sujeito chutando o portão, gritando coisas horríveis e os dois maiores do que eu saem e ficam só na saída e numa pequena discussão. Olho de novo. Parece mesmo o contorno de uma arma. É isso aí. Você trata certas pessoas com decência e dão risada de você. Dizem para você se danar. Aí você mostra que está disposto a cometer atos de violência extrema e o que fazem? São cuidadosas e dizem que isso não vai acontecer de novo. Sim, a violência funciona.
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Deixo a casa da minha mãe arrumada e sei que infelizmente ainda terei problemas. Não vou viver em guerra com o mundo, mas de vez em quando vou aprontar com ele. Em casa, depois de passar um antibiótico na perna, me ponho a rememorar tudo. Depois durmo o sono dos anjos.
Ainda por cima a justa violência faz bem ao espírito.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

P61 Chutei um amigo

Depois a gente se desculpa...
Com essa história do amigo chutado dou sequência ao texto anterior que se encadeia com ele e com os próximos, porque para comparar e atribuir valores às coisas precisamos, que surrada lógica, de coisas. E muitas vezes para fazer isso com seres humanos, precisamos até de animais. Que situação. Mas como é que se chuta um amigo? Simples, não o reconhecendo à primeira vista numa situação onde decididamente você percebeu que a violência é a única saída. E o mais interessante é que ela funciona. Dizem que ela se volta contra a gente, mas no placar geral, com os bons recebendo a violência sem terem feito nada para merecê-la, descobri, ou melhor constatei mais uma vez que ela é útil, necessária, tem efeitos e principalmente, faz bem para o estado de espírito. Você é violento quando é necessário e volta para casa em paz, certo de ter feito o que era preciso.
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Você é educado na maioria das ocasiões, resolve tudo sempre que possível por bem. Está tudo muito bem assim. Na maioria das vezes em que não é possível, o dito cidadão de bem resigna-se frente aos patifes e acredita que passar raiva em casa relembrando frases pacifistas é a mais nobre das virtudes. Engana-se quem pensa assim. Você não vai viver em guerra com o mundo, mas que a violência dá bons resultados em muitos casos, dá sim. Tem vez que dá errado mas e daí? Quantos cidadãos já não levaram a pior exatamente porque acharam um dever sagrado serem tão pacíficos quanto o próprio Ghandi, que por sinal morreu com três tiros sem reagir? E ia reagir de que jeito se ele, por fé, só usava uma bengalinha e uma túnica branca?
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Existe uma grande diferença entre quem não reage a uma agressão tendo condições de exercer a violência porque procura dar mais uma chance ao diálogo e entre quem não reage a qualquer violência que venha a sofrer porque simplesmente se colocou na posição de não poder reagir e renunciou a todos os meios para isso. Mais pacifista é quem tem condições de revidar a violência sofrida e não o faz porque percebe que ali cabe mais uma chance para o entendimento. E se decidir revidar, muito bem, está certo. É muito humano.
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Há uma violência que você sofre que é uma agressão descabida, injusta. E há uma violência que é exercida em resposta contra esse agressor que é uma justa retaliação, um ato de violência que machuca física ou moralmente o agressor e mostra a ele que sim, existem consequências para seus desatinos, se ele estava tranquilo pensando que nada lhe aconteceria. Mais do que tranquilos, a maioria dos agressores que agem assim são insolentes.
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E foi assim, no revide de uma série de aborrecimentos que acabei chutando um amigo, que ora essa, no seu devido papel de guardião e com uma decidida mordida, me abriu um rasgão na calça e um furo na perna com um dente afiado. No calor da situação, levou um chute. Me pego arrependido de ter chutado, tal a confusão da situação, o único amigo do lugar em que entrei, também depois de um bem aplicado pontapé na porta.
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Mas as coisas são assim na vida. Nem eu poderia ter de imediato reconhecido o amigo, nem ele me vendo naquelas condições poderia me ter reconhecido de igual forma. Espero que um dia possamos nos encontrar em outra situação. E foi assim que um amigo canino, da raça que em sua essência e comportamento tem se mostrado nestes tempos melhor do que a maioria dos seres da raça dos humanos, que se pretendem superiores a eles, foi, creio eu, para um canto curtir suas dores, enquanto eu aqui em casa passava antibiótico no furo da perna e olhava o rasgão na calça.
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De qualquer forma, louvável sua atitude e coragem de guardião de um local que ele julga habitado por seres decentes. Pobre animal. Soubesse ele das vilezas que guarda e certamente teria sido meu aliado, pondo seus dentes junto do meu pontapé no castigo dos malfeitores.
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Sim, a violência funciona e faz bem para a paz de espírito quando meditamos sobre tudo depois.
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A lamentar apenas ter chutado um amigo por total engano, ao qual estamos sujeitos nas ocorrências da vida.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

P60 Um pequeno animal

Na sexta feira, dia 4, encaminhei-me mais uma vez para a casa da minha mãe, da qual venho cuidando até que saia o inventário. Toda vez que vou lá, vou apreensivo. Terei mais um vidro quebrado na janela? Infelizmente o Brasil se tornou um país de crianças mal-educadas, ignorantes de uma postura moral, de bons costumes e até mesmo de asseio. É a triste verdade dos dias de hoje. Os maior incentivo disso vem dos pais, igualmente relaxados e das leis feitas para propiciar o rebaixamento moral dos famosos menores de idade. Os pais por sua vez, já chegaram na idade adulta assim rebaixados. É verdade que nem todos são assim, mas os bons já perdem e em muito para os animalizados. Com as cenas que se seguiram ao encontrar mais uma vidraça quebrada e seguindo e arrombando o portão da casa dos responsáveis e depois de discutir com eles, voltei certo de uma coisa: a violência funciona, já que não temos mais leis decenter, crianças ou pais pela frente, mas sim seres animalescos.
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Nesse meio de tempo, uma amiga leitora da Bahia deixava um comentário no texto O Ressuscitado e com tudo o que aconteceu, pensei que uma exposição sobre o que vivemos hoje em dia é válida. Uma exposição que mostra a constatação de que, sim, a violência funciona, já que estamos entregues a uma sociedade que se tornou inculta, suja e afeita a passar horas sentada na sarjeta, maquinando o que não presta. De forma não muito diferente, apenas em nível judiciário mais alto, nossa classe política é a responsável por ter contaminado os cidadãos com toda a sua imundície moral e física que habitualmente mostra quando aparece em público.
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Poucos dias antes, um ratinho havia morrido na ratoeira que coloquei perto do bueiro. Com a chuva, as águas subiram e ele afogou-se. Lamentei encontrá-lo assim. Me acalmando aqui em casa, fui encadeando as idéias, para colocar tudo em texto. Certos acontecimentos da vida, temos que aproveitar para fazer uma análise da nossa sociedade. A constatação pode ser desanimadora.
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Texto originalmente publicado em 16.05.08 no Bilogue de Textos, Idéias e Imagens
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Um pequeno animal
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De quando os animais são mais humanos do que os humanos...

Enterrei no dia 23 do mês passado uma pequena cachorrinha que apareceu doente no portão da minha casa. Numa noite, quase caindo, se deitou do lado de fora e eu com pena dela passei a dar-lhe água e ração. Como animal abandonado tinha medo de tudo, demorou até ter confiança de entrar no quintal. Após algum tempo, vendo que não seria maltratada aquietou-se num canto, onde fiz uma casinha para ela.
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Coberta de feridas, tive que tratá-la e pude perceber que aos poucos, na medida em que seu corpo se restabelecia, ela de forma surpreendente tomava conta da casa que a acolhera. Melhorando a cada dia, ela latia e cada vez mais alto, a qualquer estranho que passasse pela frente da casa. No quintal dos fundos também mantinha vigilância. Me senti gratificado num dia em que a havia banhado e quando fui soltá-la da corrente, ao me abaixar ela me estendeu a patinha. Podia ver seu estado de ânimo, sua alegria, sua confiança. O rabinho abanando e no ar a patinha estendida. Desde esse dia, toda tarde quando eu voltava, ela corria até a grade do portão e me estendia a patinha. Realmente mais civilizada que certos humanos.
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Mas a doença que ela trazia no corpo já a tinha condenado. Ela melhorou muito por coisa de um mês e depois começou a perder a saúde novamente. Ainda assim, mesmo doente, vinha me receber quando eu voltava e mesmo mais fraca latia contra estranhos. Até o dia em que caiu sem forças. Chamei o veterinário e nada mais havia a fazer a não ser abreviar sua agonia. Naquela manhã, deixei-a bem confortável ao sol, para que não sentisse nenhum frio, dei-lhe água para tirar qualquer sede e afaguei sua cabeça com carinho. Consumida pela doença, ela mal podia olhar para mim. O veterinário deu-lhe a injeção de anestésico e em menos de um minuto sua agonia terminava e ela fechava os olhinhos. Fiquei de olhos úmidos ali.
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De tarde peguei seu corpinho, a levei até uma floresta, cavei uma cova e a enterrei. Lembrei-me das vezes em que ela havia defendido a casa que a acolhera, da patinha estendida no ar, da sua confiança em ser bem tratada, de tudo e achei que havia feito certo ao invés de deixar seu corpo para ser recolhido pelo caminhão de lixo. Dei-lhe o funeral mais decente possível que ela como animal abandonado poderia ter.

Enquanto levava seu corpo e preparava a cova, ia me lembrando das notícias do projeto de lei dos deputados que institui o auxílio funeral de 16 mil reais para essa verdadeira quadrilha que hoje toma conta do legislativo no Brasil, das câmaras de vereadores até senadores. Não podia deixar de fazer comparações entre as atitudes daquele pequeno animal e as atitudes desses animais políticos, no mais baixo sentido, que hoje são o tormento dos brasileiros.
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Enquanto abria a cova com a pá, pensei nas esperanças dos brasileiros, enterradas na vala comum da corrupção dessa gente, enquanto colocava o corpinho dela ali me lembrei dos corpos das pessoas mortas e abandonadas em hospitais públicos destruídos pelas fraudes desses políticos e quando cobri a cova, pensei nas promessas que esses políticos corruptos mataram e enterraram.
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Me senti certo de uma coisa. Que aquele pequeno animal merecia aquele funeral, com honras mesmo, pois no pouco tempo em que vivera havia demonstrado valor e coragem que não vejo em nenhum político hoje. Aquela pequena cachorrinha doente, coberta de feridas, ao postar-se vigilante na frente do portão tinha mais nobreza, coragem e presença do que o mais bem vestido dos políticos de hoje. E muito mais caráter, apesar de ser apenas um pequeno animal.

Estava voltando pela estrada e tive a absoluta certeza de que, se por um desses acasos da vida, eu encontrasse ali um desses políticos que criaram o projeto de auxílio-funeral, eu o mataria com um único golpe daquela pá, sem piedade. Nem seria um assassinato, seria uma limpeza necessária.
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Mas não enterraria seu corpo. Eu o deixaria ao largo na estrada para o caminhão de lixo. Mas fiquei certo de uma coisa. Os lixeiros o reconheceriam e não o levariam.

Mesmo o lixo tem uma certa pureza que nossos políticos não tem.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

P19 O ilusionista

Mágicos e ajudantes...
Existe um bonito filme sobre mágicas. É "O Ilusionista" com Edward Norton, onde ele interpreta um mágico capaz de façanhas assombrosas, por vezes com o auxílio de um ajudante no palco deixando a platéia totalmente desnorteada com seus truques. Fazer uma planta brotar de um vaso sem nada dentro, chamar espíritos no palco, nada lhe parece impossível. Em certo momento do filme consegue até mesmo impedir um golpe de estado de um príncipe herdeiro contra seu próprio pai. E novamente seus ajudantes entram em cena. Existem ilusionistas assim, de tal forma tão bons que ficamos nos perguntando se foi realmente um truque o que eles fizeram.

É o caso de Diogo Mainardi, que verbera algumas ilusões na revista "Veja" todo seu ódio contra tudo que seja brasileiro. Palavras dele e não minhas, publicadas pelo seu próprio editor, mas em tempos idos. Uma pessoa com o passar dos anos pode mudar para melhor ou pior. No caso, com a coluna que escreve, é provável que tenha mudado para pior.

Qualquer colunista político ataca e com razão o que julga errado em seu país. É normal. Mas acreditamos que o move o nacionalismo sadio e a visão correta das instituições, onde ficamos em terreno nada firme. Move-o também o que chamamos de noção de coletividade. E nesse primeiro ítem Diogo Mainardi parece pecar, mas talvez tenha mudado. Por um desses acasos da vida, numa mesa de biblioteca me deparei com o exemplar da revista "Veja" de 1989, a qual me pus a folhear para ver a "novidades" de tanto tempo atrás. Me deparei com uma entrevista do próprio Diogo Mainardi, acerca de um livro que publicara e de suas impressões sobre a vida e o Brasil. Em um trecho dela, ele deixa explícito seu egoísmo absoluto:

O individualismo realmente não é um defeito, mas com ele deve coexistir o senso de coletividade, sem o que nenhum grupo social sobrevive. Aí será um individualismo sadio, fora disso não passa de um egoísmo absurdo. Mas talvez Diogo tenha mudado em 2009.

Em outro trecho ele declara abertamente que odeia o Brasil como um todo. Alí ele diz que o jeito de tudo o que é brasileiro o irrita. Os leitores da revista "Veja" e seu próprio publicador devem estar incluídos nessa irritação. Mas porque será então que Diogo Mainardi perdeu tempo escrevendo um livro no Brasil e para brasileiros? Melhor teria sido que escrevesse no exterior e para estrangeiros. Mas 20 anos depois ele pode ter mudado.

Prosseguindo com suas revelações, Mainardi diz que quem o sustenta é a mulher, mas isso também deve ter mudado. Nada há de errado nisso. Quantos escritores devem ter tido como sustento o trabalho de suas mulheres? Mesmo Henry Miller, um ilustre desconhecido na década de 30 teve como mecenas a escritora Anaís Nin, o que o ajudou no caminho de ser conhecido dos leitores de todo o mundo. Novamente o tempo deve ter feito suas mudanças.

Realmente o tempo muda tudo. O homem que odiava tanto o Brasil e tudo o que era brasileiro, hoje mora no Brasil e escreve para brasileiros numa revista brasileira. Resta saber porque Diogo Mainardi tem esse inconfesso ódio pelo que é brasileiro, porque verbera tanto contra movimentos sociais. Isso qualquer um tem o direito de fazer, mesmo porque alguns movimentos ditos sociais primam pelo exagero e pelo desequilíbrio em suas atitudes.

O que norteia a criação de um movimento social é a denúncia e resistência contra uma injustiça. Erros e parcialidades em suas ações é que o levam a tornar-se também mais uma injustiça, mas apenas um injustiça gritante. Há uma necessidade de saber distinguir isso na crítica.

O sistema político do Brasil por exemplo. Seus integrantes e tanto faz a ideologia nisso, fazem truques, mas com a cartola alheia ou melhor dizendo, com o dinheiro alheio. Sem as emendas orçamentárias onde eles fazem a festa, suas cartolas ficariam vazias. Sem o foro privilegiado e votações secretas, eles seriam realmente punidos por seus crimes. Contam com ajudantes na forma da lei que eles mesmo criam, mas nem sempre. Algumas vezes eles tem ajudantes na forma de polemistas. A lei apenas faz tudo o que eles querem, mas não diz.

É aí que Diogo Mainardi se destaca. Negativamente. Parece que aí o tempo não fez diferença. Com suas críticas a todos os movimentos sociais de forma indistinta e com visão parcial, ele ecoa como uma voz do passado, mas um passado tão distante que o exemplar da revista "Veja" de 1989 parece tão novo como uma primeira edição.

Estou Longe de colocar o atual governo como uma novidade ou mudança. Na verdade ele sempre foi partidário de uma só coisa: prestígio e ganhos pessoais sob o disfarce de uma inovação política, quando na verdade distribui migalhas.

No filme da vida, seria interessante ver como Diogo Mainardi se portaria se seu editor passasse a ser alinhado com o atual governo. Por certo teria que recorrer a um ilusionismo para manter seu cargo de ajudante de mágicas.

O que pode ser visto melhor na imagem abaixo, em tamanho real, sem ilusões.

quinta-feira, 12 de março de 2009

P08 Mudanças virão, minha amiga

Uma pequena conversa...
Minha prezada amiga Lia Luft, como está você? Permito-me chamá-la assim pois leio seus artigos há muito tempo. E ontem li seu artigo sobre os problemas que afligem nosso Brasil, que realmente são muitos. Nas suas observações creio que feitas ai nas terras do sul que conheço e acho lindas, mesmo com esses ares que trazem a suavidade do rio Guaíba, os pensamentos e os ânimos de qualquer um que se importe com política e com esse nosso país realmente ficam por baixo.
Mas que podemos por ora fazer? Certo, sem dúvida denunciar e de forma incisiva que vemos, porém me parece que o Brasil está tão cheio de contradições sociais que ele não terão mais uma solução pacífica. Mesmo porque interessa aos três poderes de hoje manterem essas contradições, pois é com elas e com o acirramente dos conflitos sociais que os verdadeiros barões feudais que hoje são chamados de políticos saem ganhando. É assim que eles constroem suas fortunas pessoais, às custas do sofrimento de milhões de brasileiros. E é assim que eles constroem seu prestígio político que serve tão somente para a adulação de bajuladores que os rodeiam rastejando no mais baixo servilismo. Querendo é claro um lugar na lama, quero dizer, ao sol.

Chocante não é? Mas essa é a descrição da classe política de hoje. E mais ainda dos jornalistas que dizem manter a habilitação da classe, cerrando fileiras para que qualquer um que queira escrever ou denunciar nas linhas de um jornal tenha que ter diploma. Assim segundo eles garante-se o alto nível da profissão. Que hipocrisia. É tudo reserva de mercado. Jornalistas formados hoje se espremem por qualquer mísero salário para trabalharem para políticos donos de jornais e revistas que jamais leram um livro e sob suas ordens escrevem qualquer coisa que lhes garanta o prato feito do dia. Isso segundo dizem, é manter o "alto padrão" do jornalismo brasileiro, coisa que no exterior provoca risos. Luminares do jornalismo mundial como Dan Rather, Walther Cronkite, Greg Palast e outros jamais teriam sido jornalistas no Brasil. Interessante quando você pergunta para um jornalista, até mesmo desses nascidos em 1985 o que foi o regime militar, ele descreve somente horrores. E quando você pergunta das leis do regime mais horrores ainda. E quando você faz a última pergunta sobre a Lei de Imprensa de 1967, ah, aí dizem, sábia decisão dos generais. E toca a trabalhar para o político dono do jornal, que telefona lá de Brasília para ditar o que ele deve escrever. Os jornalistas brasileiros de hoje poderiam muito bem trocar a exigência do diploma pela exigência de serem médiuns espíritas, afinal é outro espírito que dita a ele tudo o que ele na verdade psicografa. Se como os médiuns eles ao invés de colocarem seus nomes no final de cada artigo, colocassem a expressão "pelo espírito de tal sujeito" as coisas ficariam mais claras por aqui.

E sem dúvida podemos nos lamentar olhando o panorama geral. O que restou dos políticos que se pretendem honestos ou audazes hoje? Os que poderiam fazer alguma diferença, ao menos para marcar presença? Um ficou declamando versos de rap em comissões como protesto político. Outro que já até foi guerrilheiro saiu defendendo a liberação da maconha. Outra que se dizia candidata a presidente embarcou numa corrida sabidamente perdida e abriu caminho para que um ex-presidente cassado voltasse com todo poder para uma comissão política de alto nível.
Esses poucos e mais notáveis exemplos de oposição dão razão ao velho ditado político de que a esquerda brasileira só fica unida dentro da cadeia. Mas esses tempos já se foram. Agora as esquerdas brasileiras, mesmo brigadas e juradas de morte estão sempre unidas, ombro a ombro, na fila dos que vão receber as milionárias indenizações que eles mesmos votaram. Alguém já se perguntou porque essas leis demoraram tanto para serem votadas? E porque depois de votadas traziam sempre o recurso da indenização retroativa? Na verdade eram apenas punguistas enfiados num plenário e redigindo leis.
E em termos de honestidade, as coisas andam tão mal que hoje podemos comparar e dizer também que a direita brasileira só fica unida dentro da quadrilha. Fora disso é briga durante a partilha do que foi saqueado. Estão aí as divisões de partidos e coisas tais para constatarmos isso. Até um velho militante do norte já disse que um grande partido é mesmo chegado na corrupção. E outro histórico militante aí da sua terra do sul já disse que por qualquer 2 mil réis o partido se vende. Fico na dúvida se eles estão fazendo uma denúncia real ou se ficaram fora da partilha depois de mais algum assalto aos cofres públicos. Ora, durante 20 anos nunca falaram nada. Era só alegria, só constituinte cidadã. E agora toca a chorar feito bezerro desmamado.

E quanto a direita e esquerda aqui no Brasil, quem disse que não se unem de vez em quando? Esses dois tipos de, podemos dizer assim, meliantes políticos só se uniram e esqueceram as divergências políticas e ideológicas na hora de se reunirem e votarem leis que os favoreciam e lhes davam privilégios, vantagens e prerrogativas marcadas por uma obscenidade política sem igual. Quem não se lembra das avassaladoras votações onde o patrimônio da nação brasileira foi entregue a estrangeiros, tendo apenas a tímida e trêmula voz discordante da oposição, que já de antemão se sabia perdedora na defesa do Brasil? Pior ainda sempre foram as votações de aprovação de tarifas e aumento de salários nas horas da madrugada, quando de forma "conveniente" a esbravejante oposição de esquerda ou de direita "dormia".

Vejo a memória de homens como o gaúcho Alberto Pasqualini, que deixou um legado de idéias políticas de um valor incalculável esquecidas. Vejo a obra nacionalista de um Getúlio Vargas retalhada e vendida a preço vil para proveito de estrangeiros.
Vejo nos dias de hoje que para andarmos em nosso próprio território temos que pagar pedágio a estrangeiros. Grupos econômicos estrangeiros é que decidem lá fora como o Brasil vai aplicar seus recursos e como vai vender mais partes de seu território.
E o que dizem nossos políticos sobre isso, pelas palavras dos jornalistas, seus escritores de aluguel? Dizem que isso é democracia e cidadania.
Minha querida amiga Lia, este é o retrato do Brasil de hoje e é claro que frente aos exemplos do passado não podemos deixar de encarar uma realidade. Isso aqui não tem mais saída pacífica. Que assim o seja.
E acredite que vai ser para melhor.