Os deuses vencidos
Divindades também caem...
Com a notícia do recente disparo de mísseis do território libanês, os israelenses levando em frente sua ofensiva na Faixa de Gaza prendem a respiração e o temor da abertura de uma nova frente de combate faz todos os estrategistas de Israel estremecerem. O custo que isso representaria em termos de soldados, equipamentos, baixas e uma nova onda de antipatia mundial, justo no momento em que o mais fiel aliado de Israel, o já quase ex-presidente George Bush não dá mais ordens é um cenário que deixa seus generais e políticos sem dormir.
O que os israelenses começam a sentir de forma cada vez mais desanimadora é que a onda de ódio que foram alimentando desde que se instalaram no Oriente Médio em 1948 a cada dia se torna mais e mais preocupante. Em última análise, Israel, como em 1973, pode apelar para seu poderio nuclear que nunca foi confirmado e ao mesmo tempo nunca foi desmentido pelos seus dirigentes, mas num cenário desses, a intervenção da Rússia e da China, em implícita ameaça de entrar num conflito desses não é nada desprezível. Em 1973, com o avanço das tropas egípcias, segundo antigos membros de serviços secretos, Golda Meir ordenou que 13 ogivas nucleares transportadas por aviões fossem colocadas ao lado dos aviões. Com os satélites americanos e soviéticos captando a radiação das ogivas e prevendo o desastre que isso poderia representar, em alguns dias conseguiram parar o conflito. Apesar de acreditar que se defende, o cidadão israelense já começa a pensar que vai chegar o dia em que será impossível manter tantas frentes de batalha. Um país que apesar de sua invejável posição no campo da educação e avanços tecnológicos, não consegue entender porque desperta tanto ódio. Mesmo uma parte dos israelenses já começa a pensar que torna-se vital para seu futuro, para sua sobrevivência pura e simples reverem seus conceitos de estado, de religião, de nação, de relacionamento com seus vizinhos e acima de tudo retirarem do poder os líderes que no fundo sempre se guiaram pela visão religiosa, extremista e segregacionista dos rabinos ortodoxos, na construção do estado do Eretz Israel, que pressupõe, é claro, a recriação de Israel em fronteiras definidas pelos ortodoxos religiosos. Tal visão só pode conduzir para o desastre.
Os radicais islâmicos com a crescente influência e ajuda de homens no poder como Mahmoud Ahmadinejad, que viveu no Irã a guerra contra o Iraque na década de 80 trabalhando no serviço secreto iraniano e grande conhecedor de muitos dos segredos daquela região e que depois de sobreviver a tudo, se alicerça como um dos poderes militares que mais crescem na região e ainda por cima dá ajuda a esses grupos, as opções de Israel começam a ficar cada vez mais limitadas, se forem baseadas somente no confronto militar, que até hoje, em larga escala é sustentado pelo governo americano a fundo perdido de mais de 2 bilhões de dólares por ano, enquanto que os árabes, tendo perdido a limitada ajuda da União Soviética em 1991, continuam por seus meios a crescer em força militar. Nas milícias islâmicas até mesmo crianças já passam por treino militar, acreditando ser um dever quase sagrado o combate. No futuro de Israel, muito antes de ele chegar, já existem esses inimigos.
Hoje, em meio ao tumulto dos combates na Faixa de Gaza, com uma máquina militar imensa e que avança lentamente com o apoio de aviação e artilharia pesada, lutando contra radicais islâmicos que dispõem só do equipamento leve de infantaria, mas combatem sem cessar e ainda ao custo da própria vida disparam os mísseis que podem, no fundo, soldados e cidadãos de Israel sentem, sem nada dizerem, que uma guerra assim já é de antemão perdida. Mais dia menos dia, virá o acerto de contas, coisa que muitos israelenses tentaram avisar desde 1948 mas foram ignorados.
Resta a homens como Ehud Olmert e seus generais e soldados, nos momentos em que estão a sós com seus pensamentos, assistirem a tudo como deuses vencidos.

























